domingo, 5 de julho de 2009

Nietzsche, Friedrich - Ecce homo

Já faz alguns anos que li ‘Assim falou Zaratustra’ e fiquei com uma impressão um tanto confusa a respeito deste filósofo, tal a complexidade de idéias e porque não, loucas idéias, que apresentou há mais de cem anos e que causa perplexidade até os dias de hoje. Eu, que sou fascinado pelo que é difícil, como deixei claro através da minha primeira postagem, fiquei guardando este desapontamento, desde aquela época, por não ter sido capaz de entender a cabeça louca desse cara. Agora, passado alguns anos, muita água ter rolado e depois de tantas elucubrações mentais, me dei o direito de ler outras obras de Nietzsche e, aqui em particular vou tentar trazer um pouco do livro ‘Ecce homo’ onde ele faz um resumo de sua vida e obra ou, posso assim dizer, uma espécie de autobiografia enlouquecida, tomando como base o livro publicado pela Companhia de Bolso, em 2008, com tradução de Paulo César de Souza.

Pensando entendê-lo, estarei eu agora ficando louco como ele?

Friederich Wilhelm Nietzsche (1844 – 1900) nasceu no vilarejo de Roecken, próximo de Leipzig, na Alemanha. Estudou letras clássicas na célebre Escola de Pforta e na Universidade de Leipzig. Foi professor de grego e latim por onze anos na Universidade de Basiléia, na Suíça, e por outros onze anos levou uma existência errante, em pequenas cidades da Itália, Suíça, França e Alemanha. Nietzsche teve vários problemas de saúde desde bem jovem e por fim, perdeu a razão no início de 1889 e viveu em estado de demência, sob os cuidados da mãe e da irmã até sua morte, por uma infecção pulmonar.

Em outubro de 1888, ao completar 44 anos de idade, Friedrich Nietzsche decidiu fazer um balanço de sua vida. Escreveu então 'Ecce homo'. ‘Ecce homo’ não é uma simples autobiografia - é sobretudo confissão e interpretação, uma síntese inestimável da obra de Nietzsche e de seus conflitos. Um grande pensador, dos mais influentes de nossa época, fala apaixonadamente de suas influências, de sua paixão, de como surgiram suas obras, de seu modo de vida, de seus objetivos - e faz, assim, uma original e desconcertante introdução a si mesmo. Considerando que Nietzsche o escreveu apenas algumas semanas antes de sofrer a perda completa da razão, ‘Ecce homo’ é também sua última palavra, como filósofo, psicólogo e 'anticristo'.

No posfácio de Paulo César de Souza, há o registro de que Freud usou o ‘Ecce homo’ como tema para discussão em 1908, numa das reuniões semanais da Sociedade Psicanalítica de Viena. Disse que o livro não podia ser desconsiderado como produto de insânia, porque nele se preservava o domínio da forma. Disse que ninguém havia antes alcançado, e dificilmente alguém tornaria a alcançar, o grau de introspecção alcançado por Nietzsche. E disse que nunca havia estudado as investigações da psicanálise (evitava-o para preservar a independência do espírito), e devido à riqueza de idéias daquelas obras, que o impedia de ler mais que metade de uma página (!).

Não vou querer ser original e vou abusar mais um pouco do excelente posfácio de Paulo César - a profundidade da introspecção é algo que nos assombra já nas primeiras páginas. Suas análises de doença, do ressentimento, e das relações entre instâncias da psique, são de um grande psicólogo. [...] Quanto à loucura, ela se manifestaria nos excessos: na desinibição e na imodéstia sem freios, observada já nos títulos dos capítulos. O tom exaltado se explica, em parte pelas circunstâncias em que o livro foi escrito, e pelas intenções do autor. [...] Embora inteiramente seguro de sua importância, ele não obtinha o reconhecimento de seu povo. Suas obras não vendiam, seu nome era ignorado. Escreveu então ‘Ecce homo’, como reação ao silêncio de que era vítima. Neste ponto, lembro aqui também da crítica contundente e constante ao longo do livro com relação a cultura alemã [...] Mas apenas estas considerações não respondem pelos excessos. Há passagens que o leitor balançará a cabeça, perguntando a si mesmo se o autor ainda distingue entre fantasia e realidade. Pode-se ver aí um prenúncio do colapso mental a que Nietzsche sucumbiu pouco depois, no início de 1889.

Tido como “Anticristo”, na realidade, Nietzsche faz sua crítica mais intensa contra o cristianismo e suas religiões e não contra Jesus Cristo. E curiosamente faz comentário simpatizante com relação ao Budismo, como nesta passagem após desenvolver críticas contundentes ao ressentimento:

O ressentimento é o proibido em si para o doente – seu mal: infelizmente também sua mais natural inclinação. – Isso compreendeu aquele profundo fisiólogo que foi Buda. Sua “religião”, que se poderia designar mais corretamente como uma higiene, para não confundi-la com coisas lastimáveis como o cristianismo, fazia depender sua eficácia da vitória sobre o ressentimento: libertar a alma dele – primeiro passo para a convalescença.”

Para Nietzsche, o cristianismo trouxe a domesticação do homem, transformou-o em homem de rebanho, um ser frágil e decadente. Fez isto ao operar uma inversão de valores da Antiguidade clássica, ao instaurar a bondade, a compaixão e o amor ao próximo como virtudes, e um mundo ideal como o verdadeiro. Os trechos selecionados abaixo falam melhor do que qualquer explicação resumida sobre suas idéias a respeito do cristianismo e sua convicção ateísta.

Por que eu sei algo mais? Por que sou enfim tão inteligente? Nunca refleti sobre problemas que não o são – não me desperdicei. – Autênticas dificuldades religiosas, por exemplo, jamais experimentei. Escapa-me inteiramente o quanto deveria sentir-me “pecador”. Desconheço igualmente um critério confiável para definir o que seja um remorso: pelo que se ouve, não me parece coisa respeitável...

[...]“Deus”, “imortalidade da alma”, “salvação”, “além” puras noções, às quais nunca dediquei atenção nenhuma, tempo algum, mesmo quando criança – talvez não fosse infantil bastante para isso. Não conheço o ateísmo como resultado, menos ainda como acontecimento: em mim ele é óbvio por instinto. Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores – no fundo até mesmo uma grosseira proibição para nós: não devem pensar![...]

Minha experiência me dá o direito de desconfiar em princípio dos impulsos chamados “desinteressados”, de todo o “amor ao próximo”, sempre disposto à palavra e ao ato. Eu o vejo em si como fraqueza, como caso especial de incapacidade de resistência aos estímulos – a compaixão passa por virtude apenas entre os ‘décadants’. O que lanço ao rosto dos compassivos é que lhes escapa facilmente o pudor, a delicadeza, a reverência às distâncias, que compaixão cheira instantaneamente a plebe e assemelha-se às más maneiras a ponto de com elas confundir-se – que mãos compassivas podem por vezes interferir destruidoramente em um grande destino, em uma solidão ferida, em um privilégio à culpa grave.

Não quero “crentes”, creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas... Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo: perceberão por que publico este livro antes, ele deve evitar que se cometam abusos comigo...

Eu sou, no mínimo, o homem mais terrível que até agora existiu; o que não impede que eu venha a ser o mais benéfico. Eu conheço o prazer de destruir em um grau conforme a minha força para destruir – em ambos obedeço à minha natureza dionisíaca, que não sabe separar o ‘dizer Sim’ do ‘fazer Não’. Eu sou o primeiro ‘imoralista’: e com isso sou o destruidor par excellence.

No fundo são duas as negações que a minha palavra ‘imoralista’ encerra. Eu nego, por um lado, um tipo de homem que até agora foi tido como o mais elevado, os bons, os benévolos, os benéficos; nego, por outro lado, uma espécie de moral que alcançou vigência e domínio como moral em si – a moral de ‘décadance’, falando de modo mais tangível, a mora cristã. Seria legítimo ver a segunda contestação como a mais decisiva, pois a superestimação da bondade e da benevolência já me parece, de modo geral, conseqüência da ‘décadance’, sintoma da fraqueza, incompatível com uma vida ascendente e afirmadora: o negar e o destruir são condição para o afirmar.

A última linha de ‘Ecce homo’ diz:

“Fui compreendido? Dionísio contra o Crucificado”.

7 comentários:

Lígia Guedes disse...

"Humano, demasiadamente humano"...

Lígia Guedes disse...

Em tempo: "Quando Nietzsche chorou" é um lindo livro. O filme ainda não tive oportunidade...

Um beijo!

Barros disse...

Lígia

Sem dúvida, ótimas indicações. Escolhi 'Ecce homo' porque de certa forma ele sintetiza toda sua obra. E sempre que o leio não deixo de sentir um certo alumbramento, sentimento em justa oposição ao estarrecimento que sinto quando leio o que ocorre hoje na política e na nossa história cultural recente...
Bjs

Tânia Lúcia disse...

"Que o estado de pecado no homem não é fato, senão apenas a interpretação de um fato, a saber, de um mal-estar fisiológico, considerado sob o ponto de vista religioso e moral, isso não nos liga a nada". Dúvidas, receios, ressentimentos sobre o que é a vida fez desse pensador um homem diferente. Quando se fala em conflito interno, nada mais é do que procurar incessante uma resposta para o sofrimento sem que seja julgado pela religião.

Barros disse...

Tânia
Fico muito contente em receber sua visita e mais ainda pelo belo comentário.
Bjs.

Diego Viana disse...

A simpatia de Nietzche pelo budismo até que não é tão surpreendente assim. Nietzsche era um discípulo à distância de Schopenhauer, que admirava muito as religiões orientais e particularmente o budismo na sua vertente mais ascética. Nietzsche não partilha desse interesse, porque é mil vezes mais nihilista, mas guarda alguns olhares benevolentes...

Barros disse...

Diego,
Muito bem observado! Vê-se que é um comentário de quem não só conhece o assunto mas que também foi atento ao que escrevi. Quando inseri meu comentário sobre Budismo misturado aos textos selecionados do posfácio do tradutor, sabia que era um detalhe pouco mencionado nas críticas em geral, que é sempre mais focada no aspecto anticristão da obra de Nietzsche.