Após ler este excelente livro de Ismail Kadaré, resolvi assistir o filme homônimo de Walter Salles, inspirado no livro, que ratificou sua competência depois de “Central do Brasil”. Ambas as obras permitem uma leitura simbólica, mitológica e trágica, com semelhanças a uma tragédia grega. Explorando temas eternos da humanidade: honra, família, morte, vingança e amor, que embora extremamente contido nas limitações culturais e de circunstâncias geográficas específicas tão distantes da nossa prosaica realidade das cidades grandes, conseguem ter um caráter universal e nos instigar profundas reflexões. Por isso, neste mês de abril, decidi trazer para este meu espaço, estas duas belas obras.

Primeiramente apresento uma pequena biografia de Ismail Kadaré:
Ismail Kadaré nasceu em 1936, em Gorokastra, no sul da Albânia. É o mais conhecido escritor albanês. Presenciou a devastação da Albânia pelas tropas que se digladiaram durante a Segunda Guerra Mundial, experiência que deixou as suas marcas tanto na sua vida como na sua obra. Estudou História e Filologia na Universidade de Tirana e no Instituto Gorky de Literatura em Moscou. Depois de sofrer ameaças do regime comunista albanês, exilou-se na França em 1990.
Entre outros livros, publicou “O general do exército morto” (romance que lhe deu notoriedade internacional), “A fortaleza”, “O grande inverno”, “Crônica da cidade de pedra”, “A ponte dos três arcos”, “Dossiê H”, “O palácio dos sonhos”, “Concerto no fim do inverno” e “A pirâmide”.
Recebeu muitos prêmios literários, e foi nomeado diversas vezes para o Prêmio Nobel da Literatura, onde quase sempre aparece na lista de favoritos. Em 2005, recebeu o Prêmio Internacional Man Booker.
Abril Despedaçado foi escrito em 1978 e teve sua primeira publicação traduzida em 1982 na França, e aqui no Brasil, foi publicado pela Companhia das Letras em 2002, com tradução do original em albanês por Bernardo Joffily.
Selecionei de uma entrevista de Kadaré à Folha de São Paulo uma resposta que a meu ver dá margem a uma boa reflexão:
Folha (27/10/2008) - Cabe aos grandes escritores juntar realidade e irrealidade?
Ismail Kadaré - Os escritores são uma raça à parte. A literatura não é democrática. Ela é baseada na desigualdade. Se você escutar que a França tem mil escritores, isso não é boa notícia. Esse número precisa diminuir. A literatura é baseada numa seleção sem piedade, que guarda o grande valor. Até aceito a literatura medíocre ou média, pois ela cumpre uma função, atrai e garante leitores que um dia poderão ir em direção à grande literatura. O perigo começa quando a literatura mediana quer impor suas leis. É preciso que esses universos fiquem bem separados, sem intervir um no outro, como castas.

E agora vamos à resenha do livro:
O jovem montanhês Gjorg Berisha dá um tiro de fuzil e "toma o sangue" de Zef Kryeqyq. É a quadragésima quinta morte de uma vendeta iniciada setenta anos antes, quando um desconhecido foi vítima de um Kryeqyq depois de ser acolhido pelo clã dos Berisha. A matança entre as duas famílias é uma imposição do Kanun, código moral que há séculos é transmitido de boca em boca nas montanhas albanesas (assim como na região de Kossovo). Com rigor de antropólogo, Ismail Kadaré vai ao fundo dessa fantástica codificação do assassinato como direito e dever e extrai de lá toda a fúria das tragédias. Tão minucioso quanto cruel, o Kanun especifica os menores detalhes da vendeta: quem, como, onde e quando matar; a posição do cadáver; o anúncio da morte; o velório e o banquete fúnebre; o sepultamento da vítima; os prazos da vingança e as tréguas entre os clãs; as humilhações que devem ser impostas à família enquanto ela não "recuperar o sangue" que lhe foi tomado. O jovem Gjorg cumpre seu dever de cobrar dos Kryeqyq o sangue que eles devem aos Berisha, e os Kryeqyq têm agora o direito de recuperar o sangue que lhes foi tomado, matando Gjorg dentro de 28 dias. É o Kanun - esse círculo vicioso de execuções - que impulsiona o enredo de Abril despedaçado.
Mas Abril Despedaçado não fica só nisso. Depois de mostrar a vingança de Gjorg, Kadaré se concentra na viagem dos recém-casados Bessian e Diana. Bessian é um escritor de Tirana que, tomado por um fascínio romântico pelo "Kanun", resolve passar a lua-de-mel entre os montanheses. As duas histórias relatadas por Kadaré não têm a menor relação entre si, exceto por um brevíssimo encontro numa estalagem, quando os olhos de Gjorg cruzam com os de Diana, deixando-a profundamente perturbada. O terceiro núcleo do romance é constituído por Mark Ukaçjerra, a autoridade feudal que recebe um tributo de sangue cada vez que ocorre um crime de vingança nas montanhas. Entre Mark Ukaçjerra e os protagonistas das outras duas histórias também não há muita relação, a não ser por um olhar de Diana, que deixa Mark Ukaçjerra profundamente perturbado.

Abril Despedaçado (o filme) – Walter Salles
Em 2001, foi lançado o filme homônimo, dirigido por Walter Salles, com Rodrigo Santoro e José Dumont nos papéis principais, onde foi feita uma adaptação livre por Karim Aïnouz, ou seja, serviu apenas como argumento básico, sem a preocupação em manter muita fidelidade ao livro.
Este filme foi indicado ao Globo de Ouro e ao BAFTA de 2002, como melhor filme estrangeiro e foi talvez o que deu a Rodrigo Santoro maior visibilidade no cenário internacional, e lhe possibilitou ingressar no mercado internacional de atores.
Sinopse
Em abril de 1910, na geografia desértica do sertão brasileiro vive Tonho e sua família. Tonho vive atualmente uma grande dúvida, pois ao mesmo tempo em que é impelido por seu pai para vingar a morte de seu irmão mais velho, assassinado por uma família rival, sabe que caso se vingue será perseguido e terá pouco tempo de vida. Angustiado pela perspectiva da morte, Tonho passa então a questionar a lógica da violência e da tradição, que já dura desde tempos remotos quando seus antepassados começaram a se matar devido a disputa de terras.
A seguir apresento os comentários do diretor Walter Salles sobre o processo de adaptação:
“Li Abril Despedaçado, o romance de Ismail Kadaré, há três anos, durante o lançamento de Central do Brasil. Fiquei profundamente impactado com a força bruta e simbólica daquela história que remetia, de alguma forma, a um relato das origens.
Fiquei atraído pela qualidade mitológica do confronto ancestral narrado por Kadaré - este embate trágico entre um herói obrigado a cometer um crime que não quer e o destino que o impele à frente. Atraído por um mundo que antecede ao tempo, que antecede a palavra, que é feito de não ditos, de olhares. Um "huis-clos" a céu aberto, ao mesmo tempo intimista e épico.Tinha outros projetos na época, todos maiores em escala do que Abril Despedaçado. Mas não conseguia esquecer do drama daquele jovem cuja vida se partia em dois. Quando percebi, já havia começado a adaptação do livro. E abandonado os outros projetos aparentemente mais fáceis e acessíveis.
Antes de tomar a opção definitiva de realizar Abril Despedaçado, um longo processo de pesquisa foi necessário. Esse processo nos levou a entender as características das guerras entre famílias no Brasil. Esses conflitos, geralmente conduzidos por latifundiários, acabaram definindo as fronteiras de alguns territórios do sertão nordestino, como é o caso do Sertão dos Inhamuns, no Estado do Ceará, palco da guerra entre as famílias Montes e Feitosa na primeira metade do século passado.
Levei os resultados dessa pesquisa para Ismail Kadaré. Homem de inteligência aguda, Kadaré nos libertou da obrigação de seguir todos os passos dos personagens do livro. Era uma condição essencial para avançar, devido às diferenças culturais entre o Brasil e os fatos que Kadaré narra na Albânia - o Kanum, código que regulamenta os crimes de sangue naquele país, não tem equivalente no Brasil.
Por sugestão de Kadaré, mergulhamos num segundo processo de pesquisa, que nos levou à tragédia grega e, mais especificamente, às peças de Ésquilo. O derramamento de sangue e as lutas fratricidas pelo poder são alguns dos temas que alimentaram o nascimento da tragédia grega. Aprendi que, até o século 7 D.C., os crimes de sangue cometidos na Grécia não eram julgados pelo Estado. Seu desenlace era determinado pelas famílias em conflito, que estabeleciam seus próprios códigos para a reparação do sangue derramado. Curiosamente, é na ausência do Estado que as lutas pela terra entre famílias também acabaram se desenvolvendo no Brasil. Voltava-se portanto ao Brasil, através do teatro grego. Ficava também claro o caráter universal do relato de Kadaré.
Esta evidência me fez optar por um filme que tivesse uma qualidade fabular, que não precisasse estar fincado num espaço geográfico totalmente realista. Sim, esta história poderia se passar no início do século passado no sertão brasileiro, mas também em outras épocas e em outras latitudes. O romance de Kadaré trata do confronto secular entre os homens, da angústia frente à morte - e do desejo de ultrapassar este ciclo inelutável.
A este núcleo central da história, procurei adicionar elementos que me são próprios. Como em Terra Estrangeira e Central do Brasil, optei por um narrador que, no meio daquele caos, ainda tinha conseguido preservar alguma lucidez e inocência (Pacu); como no documentário Socorro Nobre, preferi um desenlace que desse, de alguma forma, uma segunda chance a alguns personagens; finalmente, interessei-me em investigar a relação entre os irmãos da família Breves - Tonho e Pacu.”
Por mim, não tenho mais a acrescentar...





12 comentários:
Adorei este bar.
Ja estive por aqui outras vezes mas so hoje consigo deixar um comentario. Gostei muito do blog, otimas matérias para discussao. Pena que nao sei inglês pra seguir os links e poder participar melhor. Vi ha algum tempo o filme de Walter Salles mas nao senti o impacto que você sentiu. Tem alguma coisa no cinema dele que me afasta, nao descobri ainda o que é. Acho que sou a unica pessoa no mundo que nao gostou do festejadissimo Central do Brasil embora reconheça que é um filme bem feito. Talvez o comentario que você fez sobre o ultimo livro e todorov pudese explicar, ao menos em parte, meu mal-estar: qe é que ese filme esta dizendo? Que valores poe em relevo? Sei os que ele poe em questao mas qual é sua posiçao? Como dizia Paulo Autran no espetaculo Liberdade, Liberdade, as pessoas precisam tomar uma posiçao se nao ninguém aguenta a barulheira que fazem as cadeiras do teatro...
Bises,
Eliana
Barros, gostei muito de "Abril Despedaçado" (o livro) e tenho de confessar que nunca assisti ao filme devido unicamente ao medo de comprometer a sensação de perfeição literária que Ismail Kadaré conseguiu atingir.
Eliana,
Antes de tudo obrigado por participar do meu bar de idéias.
Sou fã de seus excelentes mini contos ambientados em Paris. Paris, que só tive o prazer de visitar por duas vezes e já faz um bom tempo. Saudades...
Penso que há autores que tomam posições bem claras em suas obras, há outros que colocam suas idéias de forma mais sutil e dissimulada e há ainda aqueles que apresentam idéias nuas e cruas baseadas em realidades que conheceram, oferecendo ao leitor/espectador total liberdade de construírem suas próprias conclusões.
Como engenheiro, desenvolvi o hábito de avaliar os problemas sob a filosofia cartesiana, ou mais modernamente falando, dentro da lógica binária. Cada ponto é certo ou errado, bom ou ruim, seguro ou não, lucrativo ou não, sempre dentro de uma lógica científica. Porem, quando avalio uma obra de arte, consigo me abster desse tipo de análise e posso vê-la de várias perspectivas, e muitas vezes faço julgamentos contraditórios dependendo do momento ou até mesmo ao sabor da minha própria vontade de mudar o ponto de vista. E isso, me é extremamente valioso, isto é, a liberdade de pensamento e a multiplicidade de interpretação sobre um tema complexo.
Abraços
Kovacs,
O filme é uma adaptação livre do livro, por isso, não há aquela comparação direta que ocorre, por exemplo, no caso de Reparação de Ian McEwan ou no Ensaio sobre a cegueira de Saramago, que comentei aqui. Penso que este tipo de abordagem mais livre, dá mais valor ao filme, pois na adaptação fiel, a meu ver, o filme sempre fica em desvantagem em relação à literatura.
Barros,
Sempre via esse livro em sebos e, não sei por quê, o nome do autor me repelia. Há pouco tempo, resolvi dar uma olhada na sinopse de Abril Despedaçado, e não é que me deu vontade de ler? Sua resenha só fez aumentar minha curiosidade.
Fiquei pensando sobre o que o Kadaré disse a respeito da literatura: ao mesmo tempo que tem um tom elitista - não gosto nem um pouco da palavra casta -, ele tem razão: quando escritores medianos e ruins começam a ditar padrões de qualidade é porque "há algo podre no reino da Dinamarca".
Ótimo feriado!
Ricardo,
Este foi o primeiro livro de Kadaré que li, e gostei tanto que me comprometi a conhecer melhor sua obra, pois este não é considerado seu melhor livro.
A resposta de Kadaré pode ser elitista e já li uma abordagem semelhante por outros escritores, mas penso que em geral ficamos muito preocupados em adotarmos uma posição politicamente correta, e neste caso, uma posição que não seja interpretada como elitista. Com isso, acabamos por ser tolerantes demais com a mediocridade e até a imbecilidade que nos bombardeia diariamente sob todas as formas de mídia querendo nos impor um padrão de cultura de baixo nível (vide minha postagem “A formação de imbecis”). Se ao adotar uma postura menos tolerante com essa porcaria toda que nos cerca parecer elitista, prefiro ser considerado elitista como Kadaré.
Valeu pelo comentário.
Abraços
Boa noite.
Mudei um tópico em meu blog por um comentário teu que achei pertinente.
Costumo ler muito. Preciso reler e selecionar a leitura, especialmente.
Agradeço imensamente por ser claro em teus pensamentos.
Bom domingo.
Lígia,
Que bom que você tenha gostado do meu bar de idéias. Visitei seu “Nós todos lemos” – delicado, poético e inspirador. Gostei muito e já acrescentei na minha lista de blogs.
Salut.Je viens ici, maintenant et avant, pour te dire que je vouz lire avec beaucoup de plaisir, malgrè seulemant dans cette moment je te parle quelque chose.
Ça, parce que j'avais rien de courage.Non plus...
Agora, até que gostaria de começar a ler a obra de Kadaré. Eu o vi uma vez (seus livros, é claro), na biblioteca do Centro Cultural São Paulo, mas não me atrevi sequer a folhear muito.
Ismail Kadaré: "Os escritores são uma raça à parte. A literatura não é democrática. Ela é baseada na desigualdade. Se você escutar que a França tem mil escritores, isso não é boa notícia. Esse número precisa diminuir. A literatura é baseada numa seleção sem piedade, que guarda o grande valor. Até aceito a literatura medíocre ou média, pois ela cumpre uma função, atrai e garante leitores que um dia poderão ir em direção à grande literatura. O perigo começa quando a literatura mediana quer impor suas leis. É preciso que esses universos fiquem bem separados, sem intervir um no outro, como castas."
Gostaria de dizer que concordo com o que o escritor diz, porém apenas em parte. Penso que, havendo na vida muitas e muitas facetas, também deve haver na literatura muitas formas difrentes de expressar essas facetas. E a arte é o reflexo da vida - da realidade, da fantasia. Seria como falar a um estrangeiro sobre a música do Brasil sem mencionar, por exemplo, ritmos mais imediatos como o axé ou o pagode, e comentássemos apenas sobre o samba bonito e poético, a MPB prestigiada, a melodia profunda da Bossa Nova... eu acho que tudo é Brasil. Como se pode dividir a vida entre o que é "grande" e o que é "pequeno"?
E, sobre o que Walter Sales disse (... Sim, esta história poderia se passar no início do século passado no sertão brasileiro, mas também em outras épocas e em outras latitudes. O romance de Kadaré trata do confronto secular entre os homens, da angústia frente à morte - e do desejo de ultrapassar este ciclo inelutável...),eu concordo totalmente.
Sempre acreditei que os homens são iguais em todo canto, apesar das sutis diferenças culturais que porventura venham a separá-los em maior ou menor grau. Porque aquilo que nos move, seja aqui, na Albânia de Kadaré, na França de seu exílio, na África, na Mongólia ou na mais remota aldeia da mais remota floresta, é smpre o mesmo desejo e a mesma necessidade.
E a fronteira que separa o "simples" daquilo que entende-se por real necessidde é sempre uma linha muito tênue... tão tênue como aquela que separa a vida propriamnte dita da arte que representa essa vida.
Do Walter Salles, eu só conheço "Central do Brasil".Gostei demais! Maintenant, je veux regarder "Abril Despedaçado". Me convidas?
De qualquer forma, deixo aqui meus sinceros cumprimntos pela qualidade do teu blogue, e te peço que me convides mais vezes a voltar, caso acabe por me esquecer.
Au revoir.
Hakim, não sei se posso lhe chamar assim,
Obrigado pela visita e comentário, aliás, diga-se de passagem, nunca recebi um comentário tão extenso. Para dar sua opinião aqui, não precisa de convite, volte quando desejar.
Quanto à opinião de Kadaré, pode soar radical, e sem dúvida que é polêmica. Mas a minha leitura, é que devemos saber separar (mas não descartar) aquilo que é apenas expressão de entretenimento (ou cultura, se preferir essa denominação) popular, daquilo que é arte na sua forma mais elevada, que é capaz de transformar conceitos, idéias, filosofias e proporcionar a evolução da civilização. Pode parecer discurso elitista e esnobe, mas penso que é preciso alguém dar seu grito de alerta e esclarecimento diante do poder de domínio da mediocridade que cada vez aumenta mais.
Abraços
Eu vi o filme, gostei muito.
Oi Leila,
Ler o livro e assistir o filme neste caso foi particularmente interessante, porque devido a adaptação ter sido mais livre, pude perceber o excelente trabalho criativo na adaptação de uma história tão particular do interior montanhoso da Albânia para outra realidade dentro do sertão brasileiro.
Abs
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