domingo, 24 de janeiro de 2010
Albert Camus – A Peste
domingo, 17 de janeiro de 2010
Poemas selecionados
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Pragas da internet e de outros tipos
domingo, 6 de dezembro de 2009
Praia dos Carneiros - Tamandaré - PE
domingo, 22 de novembro de 2009
Porto de Galinhas – PE
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
José Saramago – Caim
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Belos Prólogos / Prefácios / Preâmbulos / Prolegômenos /Introduções, ou seja mais lá o que for
que
primeiro roeu as frias carnes
do meu cadáver
dedico
como saudosa lembrança
estas
Memórias Póstumas
2) Prólogo
QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual, ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Albert Camus (1913 – 1960) – O Estrangeiro
domingo, 4 de outubro de 2009
Samuel Beckett – O Inominável
domingo, 13 de setembro de 2009
Livros: o que já li e o que ainda não li
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Esclarecimentos aos leitores
domingo, 23 de agosto de 2009
Milan Kundera - A identidade

sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Euclides da Cunha

Neste post para homenagear um colega de profissão, vou dar uma de copista, como o escrivão Bartleby, o copista de um dos contos de Herman Melville, que serviu de tema para Vilas-Matas em seu livro Bartleby e companhia, que comentei aqui.
“No dia 15 de agosto, faz 100 anos da morte do engenheiro Euclides da Cunha. Famoso por escrever o livro “Os Sertões”, que retratou a Guerra de Canudos, sua carreira na engenharia é pouco conhecida, mas bastante relevante. Além de ter atuado na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo, chefiou uma comissão de reconhecimento à Amazônia, que teve como objetivo a demarcação de limites entre o Brasil e o Peru.
“Escrevi 'Os Sertões' em quartos de hora, nos intervalos da minha engenharia..."
A frase, por si só, revela o engenheiro responsável cuja profissão, como alimento, preparava-o para a elaboração de uma das cinco mais importantes obras da literatura brasileira.
Euclides foi um rebelde, capaz de ver as coisas por fora e traduzi-las na alma, como fez em seu tratado geológico que descreve a terra brasileira e o homem do norte e do nordeste, próprio das agruras do sertão, aparentemente acabado na tragédia da seca e pacífico e solícito nos intervalos de chuva da Graça.
Foi o Superintendente das Obras do Vale do Paraíba, autor das cadernetas topográficas necessárias à construção da ferrovia Madeira-Mamoré, importante orientador técnico do Departamento de Viação nas questões necessárias aos acertos das fronteiras do Brasil, encerradas com a conquista do Acre.
Toda a literatura e todo o jornalismo, brasileiros, estão reverenciando seu centenário de morte, mas seria um equívoco imenso ignorá-lo entre os engenheiros.
Fica o registro de nosso preito ao insigne rebelde, corajoso, sensível e justo que foi este filho de Cantagalo, da Fazenda Saudade, logradouro do Norte do estado do Rio.”
Fonte: Informe CREA-RJ

“Espalhadas pelo território brasileiro, as linhas vermelhas do mapa que ilustra a capa da edição deste sábado do Prosa & Verso indicam a extensão do interesse de Euclides da Cunha por seu país. Como engenheiro a serviço do governo, ele ajudou a fixar as fronteiras nacionais na região amazônica. Como jornalista e escritor, moldou a maneira como os brasileiros, ainda hoje, enxergam sua própria terra. Morto de forma trágica há cem anos, em 15 de agosto de 1909 - ele foi baleado por Dilermando de Assis, amante de sua mulher, Ana, depois de atirar no rival - o autor da obra-prima “Os Sertões” deixou como legado não só sua prosa brilhante, mas ainda o modelo do intelectual como desbravador, que desde então marcaria os melhores pensadores brasileiros. O centenário de morte do escritor está sendo lembrado de diversas formas, em exposições, seminários e livros, como a reunião de poemas dispersos e inéditos e uma nova biografia - ambos abordados neste Prosa especial. O caderno reúne artigos e entrevistas de estudiosos, escritores e admiradores que falam sobre a vida e a obra do homem que delineou uma nação.”
Fonte: Prosa e Verso (O Globo)
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Ismail Kadaré – Os tambores da chuva (O castelo)
Quem e quantos poderiam se interessar por um fato histórico ocorrido no século XV num pequeno e pobre país europeu, chamado Albânia? Aliás, considerar a Albânia como um país europeu, também é algo de difícil assimilação, não? Mas Kadaré, com seu romance “Os tambores da chuva” consegue não só atrair um público bem mais abrangente do que seria possível por um simples relato histórico, como também colocar questões importantes para a época em que foi publicado, 1970, e válidas até para os dias de hoje.
Publicado no Brasil pela Companhia das Letras 2003, 328 páginas, com tradução de Bernardo Joffily.
Baseado em fatos históricos sobre o cerco otomano a uma fortaleza cristã na Albânia do século XV, Kadaré faz um belo romance épico e de grande realismo. Pode-se dizer que é uma epopéia moderna, comparável à própria Ilíada de Homero, igualmente centrada no assédio a uma cidadela – Tróia.
O exército otomano e suas técnicas de combate são descritos com impressionante riqueza de detalhes. Apesar de ser uma época e cultura tão diferentes da nossa, Kadaré através de uma narrativa de grande realismo e com a construção de personagens tão marcantes, consegue colocar-nos tão próximos deles, que faz nos sentir como um dos seus pares, vivenciando junto com eles aqueles dias terríveis.
Este livro foi originalmente publicado em 1970, quando a Albânia estava sob o regime comunista, justamente na época da repressão pós-Primavera de Praga (1968). Contar com grande realismo, a centenária história do cerco do exército turco-otomano à principal fortaleza cristã albanesa, que resiste irredutivelmente à força monumental do invasor, deu margem à analogia ao clima de resistência de parte da sociedade albanesa, como a última fortaleza do marxismo autêntico, cercado por um ameaçador bloco revisionista soviético e por um campo imperialista burguês.
Kadaré utiliza-se de duas características de composição literária muito interessante neste romance, uma delas é a de apresentar a narrativa intercalada por vários personagens do imenso e variado contingente turco-otomano, vindos de diferentes hierarquias, posições sociais e especializações, tais como comandantes de diversas tropas, membros religiosos do conselho de guerra, o chefe da intendência, um engenheiro-mor, um soldado de elite, um médico, um cronista, um poeta, um astrólogo, concubinas do harém do paxá (comandante-em-chefe), etc.. Cada qual vê a investida contra os cristãos de maneira distinta, constituindo assim um universo político, cultural e religioso bem diversificado.
Outra característica bem interessante usada por Kadaré, é o de conduzir toda a narrativa da história vista do lado do invasor, porem, finalizando cada capítulo com breves reflexões narradas por um resistente desconhecido de dentro do castelo atacado, mas de tal forma que não permite que o leitor assuma com facilidade a defesa de qualquer dos lados a partir do qual se narra.
Um dos personagens que logo nos faz sentir certa empatia, é o cronista Mevla Tcheleb, responsável pelo registro histórico da campanha. Por vezes, sente-se incapaz de suportar a tensão de um ambiente de guerra e fica perturbado tanto pela sua incapacidade de compreensão da dimensão política do que se passa a sua volta, como pela busca das palavras certas para seu texto de modo a não decepcionar o paxá. Mas é através do chefe da intendência (se não me engano, o único personagem sem nome), que Kadaré se utiliza para colocar grandes questões sobre política e religião, como por exemplo, neste trecho em que o chefe da intendência conversa com o cronista quando este lhe diz uma frase de efeito “Vamos golpeá-los até varrê-los da face da terra:
“(...) Você falou em varrê-los da face da terra. Eu acrescentaria três perguntas. Primeira: é possível varrer um povo? Segunda: em caso positivo, que meios tornam isso possível? Terceira, e preste atenção, Tcheleb, as terceiras perguntas são sempre mais capciosas... então, a terceira pergunta é: será uma coisa dessas conveniente? Ou, para ser mais preciso, será sempre conveniente?”
“ – O embate de idéias continua há muito tempo – prosseguiu o outro –, o que será deixado e o que será subtraído aos povos dos Bálcãs: a religião ou a língua?” (...)
As grandes questões postas por Kadaré são válidas tanto para a Europa ocidental cristã do século XV quanto para a Albânia do século XX: é possível aniquilar um povo? Se não é possível aniquilá-lo, será possível subjugá-lo? Caso seja possível, será ainda interessante ou útil? E uma vez subjugado, o que fazer com ele?
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Coletânea de comentários
terça-feira, 28 de julho de 2009
Ideas Worth Spreading

Numa sequência bem oportuna ao meu último post, aqui vai um belo exemplo do que se pode fazer de bom através da Internet:
“TED – Ideas Worth Spreading” (veja em http://www.ted.com) é uma organização sem fins lucrativos, cuja proposta é unicamente a de difundir boas idéias e promover o seu debate.
Boas idéias e bem apresentadas por especialistas das mais diversas disciplinas, em palestras de no máximo 18 minutos, gravadas em vídeo, durante conferências que são realizadas anualmente em Long Beach, Califórnia, EUA e em Oxford, Grã-Bretanha, são reunidas neste site para exibição gratuita, alem de oferecer um espaço para a livre troca de idéias e outras maneiras de participação.
As palestras são em inglês, mas muitas delas dispõem de legendas, algumas só em inglês, mas há outras com tradução para várias línguas inclusive Português. O site oferece uma classificação das palestras por temas e por outros critérios. Recomendo em particular, a palestra “Wiring a web for global good” de Gordon Brown, onde oportunamente, o tema apresentado é sobre como a Internet e todos os modernos meios de comunicação podem ser bem usados – cabe ressaltar que os Blogs foram mencionados várias vezes como um exemplo importante. O tema é apresentado de um ponto de vista político bem interessante e a chamada para a palestra é a seguinte:
“We're at a unique moment in history, says UK Prime Minister Gordon Brown: we can use today's interconnectedness to develop our shared global ethic -- and work together to confront the challenges of poverty, security, climate change and the economy.”
Para quem até aqui ainda não clicou no link que coloquei lá no início, apresento abaixo textos que extraí da página de apresentação do site, para uma melhor avaliação da proposta desta organização (infelizmente não tive condições de traduzir).
TED is a small nonprofit devoted to Ideas Worth Spreading. It started out (in 1984) as a conference bringing together people from three worlds: Technology, Entertainment, Design. Since then its scope has become ever broader. Along with the annual TED Conference in Long Beach, California, and the TEDGlobal conference in Oxford UK, TED includes the award-winning TEDTalks video site, the Open Translation Program, the new TEDx community program, this year's TEDIndia Conference and the annual TED Prize.
The annual conferences in Long Beach and Oxford bring together the world's most fascinating thinkers and doers, who are challenged to give the talk of their lives (in 18 minutes).
We believe passionately in the power of ideas to change attitudes, lives and ultimately, the world. So we're building here a clearinghouse that offers free knowledge and inspiration from the world's most inspired thinkers, and also a community of curious souls to engage with ideas and each other. This site, launched April 2007, is an ever-evolving work in progress, and you're an important part of it. Have an idea? We want to hear from you.
Today, TED is therefore best thought of as a global community. It's a community welcoming people from every discipline and culture who have just two things in common: they seek a deeper understanding of the world, and they hope to turn that understanding into a better future for us all.
domingo, 26 de julho de 2009
A Internet não veio para salvar o mundo
O título acima é de uma entrevista com José Saramago publicada hoje no jornal O Globo. Nela, Saramago explica o que pensa sobre a rede e sobre seu último livro “O Caderno” em que nada mais é que uma coletânea de posts que publica em seu Blog desde setembro de 2007, onde comenta sobre política, literatura, religião e outros temas relacionados à cultura e sociedade. Acompanho regularmente seu blog e como seu grande admirador, já até utilizei um de seus posts num artigo aqui neste meu bar de idéias. Já andei dando a entrever neste blog parte do mesmo tema da entrevista, mas depois que a li, me senti motivado a abordá-lo de forma mais incisiva.
Em meu Blog, não tento economizar palavras, pelo contrário, em geral meus posts são bem extensos, e muitas vezes tenho dificuldade em por um limite às minhas idéias sobre os livros ou temas que me proponho a escrever. Tenho sempre muito mais a dizer do que publico, e o limite é sempre imposto pelo tempo que disponho para isso, muito mais escasso do que eu gostaria. Não vejo o poder de síntese como algo negativo, pelo contrário, é uma qualidade que admiro em muitos escritores e que admito não possuir, mas em minha opinião, a síntese não deve comprometer a amplitude de um pensamento crítico, seja de que tema for, seja em que circunstância for, caso contrário, é melhor nada dizer.
Esta semana, abri minha conta no Twitter, mais movido pela curiosidade do que pela necessidade e depois de vasculhar um pouco suas funcionalidades, cheguei à conclusão de que não oferece nada de especial ou de maior interesse, quando comparado com outros sites de relacionamento já bem conhecidos como o Orkut e o Facebook. Na realidade é a mesma coisa só que bem mais limitado – 140 caracteres é o limite imposto para cada pensamento a ser publicado, alem de outras limitações. É o mal que aflige a comunicação de hoje – muita quantidade, variedade e instantaneidade, com pouco conteúdo analítico – tudo tem que ser mais dinâmico, mais fugaz, rapidinho e superficial. Mas aí, parem para pensar, o que ficou? O que realmente é importante para suas vidas? De que valem zilhões de mensagens com informações superficiais, de conteúdo limitado e passageiro, sem um aprofundamento crítico, sem nem sequer ter tempo de estabelecer um relacionamento do que se lê com uma memória emocional importante para você? Quando tudo que foi lido é esquecido ou sobreposto no momento seguinte por uma nova informação e assim por diante, ad infinitum. Qual o valor de tanto tempo despendido nisso? Será que as pessoas que levam a vida assim, têm capacidade de ler ou mesmo de entender um livro de mais de 500 páginas de um escritor laureado com um prêmio Nobel? Será que conseguem fixar algo importante na mente e no coração? Será que conseguem manter um relacionamento mais profundo com alguém, ou ficam sempre na superficialidade, na transitoriedade, numa ânsia infinita pelo próximo item – pensamento, assunto, fato, e até mesmo pessoa.
Tudo isso parece sintomas de uma sociedade que tem uma incapacidade de lidar com uma visão mais profunda da vida, de uma análise mais crítica, que requer tempo e dedicação intelectual para sua compreensão. Tentam substituir esta incapacidade por uma overdose de informação, que apesar de ser tudo descartável, de que tudo se torna lixo em poucos momentos não deixando nada construtivo, gera a falsa impressão, pelo menos para seus pares, de que estão extremamente antenadas com o mundo.
Agora, leiam o que respondeu Saramago a duas perguntas que selecionei da entrevista mencionada no início deste post, que estão diretamente relacionadas ao tema que abordei acima:
O senhor acha que a experiência em escrever para um blog, onde teoricamente os textos são mais curtos e diretos, teve alguma influência na sua escrita?
SARAMAGO: Nenhuma. Continuo a utilizar frases longas, das que dão espaço e tempo para observações e análises quer considero necessárias. A tão louvada clareza das sínteses é, não raro, enganosa.
O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?
SARAMAGO: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Marguerite Duras - O amante (L’Amant)

Biografia (fonte: Maurício Ayer)
Marguerite Donnadieu nasceu em 1914, na Indochina Francesa (atual Vietnã), filha de professores franceses. Seu pai morre quando ela tem quatro anos, e a família passa por fortes privações. Após a morte do pai, sua mãe conseguiu uma pequena concessão de terra no Camboja (então colônia francesa), mas o terreno se mostraria incultivável e sua família viria a perder quase tudo com a chegada das enchentes. Esses dias na Ásia marcaram profundamente sua vida.
Aos dezoito anos, vai à França fazer seus estudos em Matemática e Ciências Políticas. Na universidade, conhece Robert Antelme, com que se casa em 1939. Publica seu primeiro livro como Marguerite Duras (o nome vem de uma vila francesa onde seu pai tinha uma propriedade), Les Impudents, em 1943.
Durante a ocupação alemã de Paris, na Segunda Guerra Mundial, o casal se engaja na Resistência, no grupo de François Mitterrand. Robert é preso e enviado ao campo de Dachau. A narrativa da espera pelo marido, à medida que as atrocidades dos campos de extermínio nazistas vão sendo reveladas, pode ser lida em A dor.
Após a guerra, Marguerite filia-se ao Partido Comunista Francês, mas desde o início é tida como não alinhada, rebelde. Sufocada pela estreiteza do stalinismo daqueles anos, pede sua desfiliação, mas o Partido oficialmente a expulsa.
Nos anos 50, dedica-se totalmente aos livros. Lança romances importantes, como Uma barragem contra o Pacífico (1950), baseado em sua infância indochinesa, e Moderato Cantabile (1958). Ambos são adaptados ao cinema. A notoriedade internacional virá, no entanto, com seu primeiro roteiro para um longa-metragem. Hiroshima, meu amor (1959-1960) dirigido por Alain Resnais, torna-se um marco na história do cinema.
A partir daí, sua literatura vai se transformando, ela se aproxima mais do teatro e do cinema. Nos anos 60, escreve romances fundamentais como O deslumbramento de Lol V. Stein (1964), que lhe valeu uma homenagem de Jacques Lacan, e O vice-cônsul(1965). Escreve e dirige para o teatro, e encontra em Samuel Beckett um admirador. Entre seus amigos próximos estão os filósofos Maurice Blanchot e Maurice Merleau-Ponty e o cineasta Jean-Luc Godard.
A anarquia de 1968 é para Duras uma experiência transformadora. Em Paris, segundo a escritora, “o amor corria pelas ruas”, numa revolução sem destino e totalmente fora do controle dos dirigentes do PCF. Logo após, ela escreve Détruire, dit-elle (1969).
Questionada se era um livro político, ela responde: “Foucault diz que sim”. A partir daí, uma noção permeará sua obra, a de que o mundo está moribundo. É a “perda do mundo”, a única coisa que uniria igualmente a todas as pessoas, a única democracia que existe. No filme O caminhão ela declara isso cabalmente, com a frase enigmática: “Que o mundo caminhe a sua perda é a única política” (“Que le monde aille à sa perte, c’est la seule politique”).
Nesta época, Duras entra definitivamente no mundo do cinema, como roteirista e diretora. Realizou filmes extremamente experimentais, como Nathalie Granger (primeiro longa com Gérard Depardieu), India Song e O caminhão. Ao todo, são dezoito filmes, marcados por suas experiências com a disjunção entre a imagem sonora e a imagem visual. Por essa mesma razão, o comentário sobre sua obra figurará quase como uma conclusão do livro de filosofia e crítica de cinema de Gilles Deleuze, A imagem-tempo.
Na virada dos anos 70 para os 80, Duras retoma a literatura, depois de uma década dedicada eminentemente ao cinema. O trabalho com a imagem, no entanto, transforma sua maneira de escrever. Isso está evidente em livros como O verão de 80 (1980), O homem sentado no corredor (1980) e O homem atlântico (1982).
O amante (1984) é sua obra de retorno ao romance, após romper completamente os limites de linguagem entre literatura, teatro e cinema. O livro torna-se rapidamente um best-seller internacional e ganha o prêmio Goncourt, o mais importante da França. O filme é adaptado ao cinema por Jean-Jacques Annaud, com grande sucesso comercial.
No final da vida, o alcoolismo torna-se um problema mais grave e constante. Duras interna-se várias vezes para tratar-se, uma delas entra em coma por nove meses. Seu último romance será A chuva de verão (1990). Em 1994, aos 79 anos, morre de câncer em seu apartamento na rua Saint Benoît, em Paris.
Sinopse de “O Amante”:
O amante (L’ amant) foi publicado originalmente na França, em 1984, quando Duras já contava com 70 anos, e se consagrou como sua obra mais célebre, sendo considerada sua obra mais autobiográfica. A edição que apresento aqui é da Cosac Naif, de 2007, com 112 páginas, que foi traduzida por Denise Bottmann e conta ainda com um posfácio de Leyla Perrone-Moisés. Usarei partes deste posfácio e da sinopse da própria editora no desenvolvimento a seguir.
Duras conta-nos a história de sua vida, quando adolescente, morando com a mãe e seus dois irmãos, na Indochina Francesa (atual Vetnã). No seu relato os dois temas mais presentes e importantes desta sua fase da vida são suas memórias de sua iniciação sexual aos quinze anos e meio, com um chinês rico de Saigon, 12 anos mais velho. Neste relacionamento há descoberta do desejo e o poder de usá-lo a seu favor, ou seja, da prostituição, como ela própria define. Em paralelo, as lembranças sofridas onde estão presentes sua mãe, com sua desgraça financeira e moral, o irmão mais velho, drogado, cruel e venal que apesar disso recebe tratamento privilegiado da mãe, o irmão mais novo, frágil e oprimido e a jovem do liceu francês de Saigon, brutalmente amadurecida e desencantada. A narrativa apresenta episódios ambivalentes, ambíguos. Os encontros amorosos são, ao mesmo tempo, intensamente prazerosos e infinitamente tristes; a vida da família contrapõe amor e ódio, miséria material e riqueza afetiva nos mais diversos sentidos. Não sabemos em que medida a história é verdadeira e nem é importante saber. “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha”, diz ela, já nas primeiras páginas do romance.
Duras alterna sua narrativa entre a 1ª pessoa (da velha que se lembra) e a 3ª pessoa (a menina, transformada em imagem): “De repente eu me vejo como outra, como outra vista, de fora, posta à disposição de todos, à disposição de todos os olhares, na circulação das cidades, dos caminhos, do desejo”. Embora o desenrolar da história seja perfeitamente compreensível, o romance tem uma estrutura complexa. É composto de fragmentos, que alternam o passado da narrativa, um passado posterior a este e o presente da lembrança. Enquanto, no presente da lembrança, os verbos estão em formas temporais do passado (imperfeito, passado composto), na narrativa central, dos fatos mais recentes, os verbos estão no presente: “Permitam-me dizer, tenho quinze anos e meio. Uma balsa desliza sobre o Mekong. A imagem permanece durante toda a travessia do rio”.
Segue algumas partes que selecionei sobre o estilo e a temática de Duras:
- Fazendo uma introdução do seu estado de espírito ao escrever este livro dando a entrever o que está por vir:
“A história de uma minúscula parte de minha juventude, já escrevi mais ou menos, enfim, quero dizer, dei-a a perceber; falo justamente desta parte, a da travessia do rio. O que faço aqui é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos encobertos dessa mesma juventude, de certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos que enterrei. Comecei a escrever num meio que me impelia fortemente ao pudor. Escrever para eles ainda era moral. Escrever, agora, é muitas vezes como se não fosse mais nada. Às vezes sei disto: que a partir do momento em que não é mais, todas as coisas confundidas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever não é nada. Que a partir do momento em que não é, a cada vez, todas as coisas confundidas numa só por essência indefinível, escrever não é nada senão publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião, vejo que todos os campos estão abertos, que não haveria mais muros, que a escrita não teria mais onde se esconder, onde ser feita, onde ser lida, que sua inconveniência fundamental não seria mais respeitada, mas não vou muito além.” (pág. 12)
- Reflexões sobre a infância e a família: Amor x Ódio / Silêncio / Nada
“Nas histórias de meus livros que remetem à minha infância, de repente não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio que também sentíamos por ela e o amor que sentíamos uns pelos outros, e o ódio também, terrível, nesta história comum de ruína e morte que era a dessa família em qualquer caso, de amor ou de ódio, e que ainda não consigo entender plenamente, ainda me é inacessível, oculta no mais fundo de minha carne, cega como um recém-nascido no primeiro dia de vida. Ela é o ponto onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, essa lenta labuta durante toda a minha vida. Ainda estou lá, diante daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, e pensei que escrevia, nunca amei, e pensei que amava, nunca fiz nada a não ser esperar diante da porta fechada.” (pág. 23)
- Resumindo a condição de prostituta que assume com seu amante chinês:
“Quinze anos e meio. A coisa logo se espalha no posto de Sadec. Só a roupa já mostraria a desonra. A mãe não tem noção de nada, nem de como criar uma filha. A pobre menina. Não acreditem nisso, esse chapéu não é inocente, nem esse batom na boca, tudo isso significa alguma coisa, não é inocente, quer dizer, é para atrair os olhares, o dinheiro. Os irmãos, uns vagabundos. Dizem que é um chinês, filho do milionário, a mansão do Mekong, com cerâmicas azuis. Em vez de se sentir honrado, nem ele quer isso para o filho. Família de vagabundos.” (pág. 64)
- Durante a viagem de navio para a França, deixando tudo para trás – descoberta do amor?
“(...) produziu-se no grande salão do convés principal a irrupção de uma valsa de Chopin que ela conhecia de maneira íntima e secreta (...). (...) Não havia uma brisa sequer, e a música havia se espalhado por todo o paquete negro, como uma imposição dos céus que não se sabia a que se referia, como uma ordem de Deus cujo teor era desconhecido. E a jovem tinha se levantado como se estivesse indo por sua vez se matar, por sua vez se lançar ao mar, e depois havia chorado porque tinha pensado naquele homem de Cholen e de repente não tinha certeza se não o havia amado com um amor do qual não se apercebera porque ele tinha se perdido na história como a água na areia e agora ela só o reencontrava nesse instante em que a música se lançava ao mar.” (pág. 81)
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Um dia terei vivido
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Enrique Vila-Matas – Bartleby e companhia

Bartleby e companhia, de autoria de Enrique Vila-Matas, foi lançado na Espanha em 2000. Traduzido no Brasil por Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista e publicado em 2004, pela Editora CosacNaify (188 páginas). A obra recebeu os prêmios Cidade de Barcelona (Espanha, 2001) e Melhor Livro Estrangeiro (França, 2002).
Vila-Matas nos surpreende com um livro que é definido logo no seu início como – um diário e ao mesmo tempo um caderno de notas de rodapé comentando um texto invisível – onde ao fazer da citação de um dos personagens mais famosos de Herman Melville, o escrivão Bartleby, dá início ao processo de narrativa rastreadora de Bartlebys ou de escritores do Não.
Para aqueles que esqueceram ou ainda não leram o livro de Melville – Bartleby é um empregado em um cartório de Nova York que inicialmente muito ativo, é tomado de uma paralisia encantatória que o impede de fazer quaisquer serviços. Torna-se um ser completamente apático e alheio ao mundo que o cerca. Jamais foi visto lendo, escrevendo e permanece por inúmeras horas parado diante de uma parede pálida da Wall Street. O Bartleby de Melville vive o tempo todo no escritório, inclusive, certo dia, seu patrão descobre que Bartleby faz do local de trabalho a sua própria residência. Quando é encarregado de realizar qualquer tarefa, costuma responder da seguinte forma: “Prefiro não o fazer”.
Vila-Matas isola sua essência e sua "pulsão negativa ou atração pelo nada", para daí constituir o que chama de Síndrome de Bartleby, que é explicado logo nas primeiras páginas do livro após sua introdução ficcional que é o mote para toda sua pesquisa:
“Nunca tive sorte com as mulheres, suporto com resignação uma penosa corcunda, meus parentes mais próximos estão todos mortos, sou um pobre solitário que trabalha em um escritório pavoroso. De resto, sou feliz. Hoje mais do que nunca, porque começo 8 de julho de 1999 este diário que será ao mesmo tempo um caderno de notas de rodapé comentando um texto invisível e, espero, demonstrando minha destreza como rastreador de bartlebys.”
“Já faz tempo que venho rastreando o amplo espectro da síndrome de Bartleby na literatura, já faz tempo que estudo a doença, o mal endêmico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada que faz com que certos criadores, mesmo tendo consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso), nunca cheguem a escrever; ou então escrevam um ou dois livros e depois renunciem à escrita; ou, ainda, após retomarem sem problemas uma obra em andamento, fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre.”
Nesse rastreamento por Bartlebys da literatura, ele encontra centenas desses escritores do Não. Conta suas histórias de forma breve e simples, desfilando uma simpática erudição com tom irônico e inteligente, rindo da angústia criativa. Nelas, encontramos episódios relativos tanto a nomes consagrados, dentre os quais Hofmannsthal, Walser, Rimbaud, Kafka, Hawthorne, Juan Rulfo, Musil, Chamford, Salinger, Valéry, como também envolvendo escritores completamente desconhecidos, ou talvez até inventados. Um dos mais divertidos é Paranóico Pérez, que nunca escreveu um livro por sempre acreditar que suas idéias eram roubadas por José Saramago. Mas não faz diferença, conhecê-los ou não, pois, afinal, todos estão ligados a uma lei comum: “Aqui acabam as palavras, aqui finda o mundo que conheço...”
Uma opinião final: o que Vila-Matas apresenta, na verdade, é um conjunto de notas e pequenos relatos que sem dúvida tem a virtude de apresentar de modo criativo um resultado bem curioso a partir de uma pesquisa bastante abrangente, mesclado a uma pequena parte ficcional que não chega a formar um todo narrativo de um romance, deixando assim de encarar com mais profundidade toda a angústia do silêncio criador. Sempre que se aproxima de algo mais denso, o autor prefere a piada ou a citação erudita, e circunda os possíveis motivos sem nunca se arriscar a analisá-los com mais profundidade. Sua leitura deve ser encarada como um bom divertimento, mas que também apresenta uma boa fonte de idéias para nossa reflexão sobre a angústia e o exercício de quem se propõe a escrever, através de casos de renúncia em colocar as idéias em linguagem escrita.
domingo, 12 de julho de 2009
Indecifrável
Estou lendo um livro. Isto não é nenhuma novidade. Comecei a lê-lo no fim de semana passado e venho lendo-o aos poucos durante a semana, nas poucas horas, ou talvez minutos que tenho disponíveis, na minha vida devotada ao trabalho e outros esforços pelo sustento e manutenção da ordem familiar, alem da manutenção da minha própria imagem de homem austero e responsável – até parece!... – Não direi qual é o livro, na tentativa de criar um suspense para minha próxima postagem – como sou pretensioso, não? Até parece que sou um grande escritor, que tem milhares de leitores ávidos por lerem minha próxima postagem.
Hoje é domingo e conclui sua leitura. Este domingo me parece como um daqueles dias típicos que marcam o início do outono na Europa, muito embora, aqui neste país tropical, seja encarado como um dia típico de inverno. O vento sopra de modo instável, ora forte ora mais fraco, as nuvens aparecem às vezes num tom cinza plúmbeo, às vezes mais claro, chegando ao tom branco como a neve. O sol às vezes aparece timidamente por entre elas com nesgas de céu azul que o acompanha, querendo dizer que ainda estão lá, atrás de toda essa variação de nuvens outonais. Hoje me sinto mais europeu do que nunca enquanto meu país me causa cada vez mais estranheza. Assisti de manhã pela TV, ao grande prêmio de Formula 1 em Nürburgring, na Alemanha. Depois, enquanto bebia um vinho que aprecio muito, consegui concluir a leitura do livro do qual falava acima, cuja leitura estava se estendendo mais do que eu previa, por conta do pouco tempo que disponho de viver a minha vida (influências Proustianas ou Beckettianas a parte).
Agora estou aqui, escrevendo estas linhas sem bem saber o que estou a escrever e aonde quero chegar. Mas isto não importa agora, tendo em vista o que se passou ontem. Depois de acordar com uma forte dor na nuca que se irradiava para o centro da cabeça, que me impedia fazer qualquer coisa intelectualmente produtiva – sim, porque pela manhã, fui capaz de ir à academia exercitar meu corpo –, a situação se tornou mais bizarra ainda, depois que decidi tomar um medicamento relaxante muscular na parte da tarde, que de tão forte, me deixou num estado abobalhado durante o resto do dia. Simplesmente, fiquei incapaz de encontrar minhas idéias, que pareciam estar no fundo de um oceano e “eu” flutuando sobre a sua superfície, a procurar por um submarino que fosse capaz de resgatá-las de volta. Era como se o relaxante muscular tivesse autuado como relaxante cerebral. Que coisa de louco! – A dor me acompanha desde quando criança e parece que me escolheu como sua vítima, mas sem nunca definir o que quer em troca para me abandonar. Creio ser um caso típico de atavismo – que interpretem estas frases do jeito que quiserem.
Na próxima postagem, revelarei minha experiência de leitura. Não percam!
domingo, 5 de julho de 2009
Nietzsche, Friedrich - Ecce homo

Já faz alguns anos que li ‘Assim falou Zaratustra’ e fiquei com uma impressão um tanto confusa a respeito deste filósofo, tal a complexidade de idéias e porque não, loucas idéias, que apresentou há mais de cem anos e que causa perplexidade até os dias de hoje. Eu, que sou fascinado pelo que é difícil, como deixei claro através da minha primeira postagem, fiquei guardando este desapontamento, desde aquela época, por não ter sido capaz de entender a cabeça louca desse cara. Agora, passado alguns anos, muita água ter rolado e depois de tantas elucubrações mentais, me dei o direito de ler outras obras de Nietzsche e, aqui em particular vou tentar trazer um pouco do livro ‘Ecce homo’ onde ele faz um resumo de sua vida e obra ou, posso assim dizer, uma espécie de autobiografia enlouquecida, tomando como base o livro publicado pela Companhia de Bolso, em 2008, com tradução de Paulo César de Souza.
Pensando entendê-lo, estarei eu agora ficando louco como ele?
Friederich Wilhelm Nietzsche (1844 – 1900) nasceu no vilarejo de Roecken, próximo de Leipzig, na Alemanha. Estudou letras clássicas na célebre Escola de Pforta e na Universidade de Leipzig. Foi professor de grego e latim por onze anos na Universidade de Basiléia, na Suíça, e por outros onze anos levou uma existência errante, em pequenas cidades da Itália, Suíça, França e Alemanha. Nietzsche teve vários problemas de saúde desde bem jovem e por fim, perdeu a razão no início de 1889 e viveu em estado de demência, sob os cuidados da mãe e da irmã até sua morte, por uma infecção pulmonar.
Em outubro de 1888, ao completar 44 anos de idade, Friedrich Nietzsche decidiu fazer um balanço de sua vida. Escreveu então 'Ecce homo'. ‘Ecce homo’ não é uma simples autobiografia - é sobretudo confissão e interpretação, uma síntese inestimável da obra de Nietzsche e de seus conflitos. Um grande pensador, dos mais influentes de nossa época, fala apaixonadamente de suas influências, de sua paixão, de como surgiram suas obras, de seu modo de vida, de seus objetivos - e faz, assim, uma original e desconcertante introdução a si mesmo. Considerando que Nietzsche o escreveu apenas algumas semanas antes de sofrer a perda completa da razão, ‘Ecce homo’ é também sua última palavra, como filósofo, psicólogo e 'anticristo'.
No posfácio de Paulo César de Souza, há o registro de que Freud usou o ‘Ecce homo’ como tema para discussão em 1908, numa das reuniões semanais da Sociedade Psicanalítica de Viena. Disse que o livro não podia ser desconsiderado como produto de insânia, porque nele se preservava o domínio da forma. Disse que ninguém havia antes alcançado, e dificilmente alguém tornaria a alcançar, o grau de introspecção alcançado por Nietzsche. E disse que nunca havia estudado as investigações da psicanálise (evitava-o para preservar a independência do espírito), e devido à riqueza de idéias daquelas obras, que o impedia de ler mais que metade de uma página (!).
Não vou querer ser original e vou abusar mais um pouco do excelente posfácio de Paulo César - a profundidade da introspecção é algo que nos assombra já nas primeiras páginas. Suas análises de doença, do ressentimento, e das relações entre instâncias da psique, são de um grande psicólogo. [...] Quanto à loucura, ela se manifestaria nos excessos: na desinibição e na imodéstia sem freios, observada já nos títulos dos capítulos. O tom exaltado se explica, em parte pelas circunstâncias em que o livro foi escrito, e pelas intenções do autor. [...] Embora inteiramente seguro de sua importância, ele não obtinha o reconhecimento de seu povo. Suas obras não vendiam, seu nome era ignorado. Escreveu então ‘Ecce homo’, como reação ao silêncio de que era vítima. Neste ponto, lembro aqui também da crítica contundente e constante ao longo do livro com relação a cultura alemã [...] Mas apenas estas considerações não respondem pelos excessos. Há passagens que o leitor balançará a cabeça, perguntando a si mesmo se o autor ainda distingue entre fantasia e realidade. Pode-se ver aí um prenúncio do colapso mental a que Nietzsche sucumbiu pouco depois, no início de 1889.
Tido como “Anticristo”, na realidade, Nietzsche faz sua crítica mais intensa contra o cristianismo e suas religiões e não contra Jesus Cristo. E curiosamente faz comentário simpatizante com relação ao Budismo, como nesta passagem após desenvolver críticas contundentes ao ressentimento:
“O ressentimento é o proibido em si para o doente – seu mal: infelizmente também sua mais natural inclinação. – Isso compreendeu aquele profundo fisiólogo que foi Buda. Sua “religião”, que se poderia designar mais corretamente como uma higiene, para não confundi-la com coisas lastimáveis como o cristianismo, fazia depender sua eficácia da vitória sobre o ressentimento: libertar a alma dele – primeiro passo para a convalescença.”
Para Nietzsche, o cristianismo trouxe a domesticação do homem, transformou-o em homem de rebanho, um ser frágil e decadente. Fez isto ao operar uma inversão de valores da Antiguidade clássica, ao instaurar a bondade, a compaixão e o amor ao próximo como virtudes, e um mundo ideal como o verdadeiro. Os trechos selecionados abaixo falam melhor do que qualquer explicação resumida sobre suas idéias a respeito do cristianismo e sua convicção ateísta.
Por que eu sei algo mais? Por que sou enfim tão inteligente? Nunca refleti sobre problemas que não o são – não me desperdicei. – Autênticas dificuldades religiosas, por exemplo, jamais experimentei. Escapa-me inteiramente o quanto deveria sentir-me “pecador”. Desconheço igualmente um critério confiável para definir o que seja um remorso: pelo que se ouve, não me parece coisa respeitável...
[...]“Deus”, “imortalidade da alma”, “salvação”, “além” puras noções, às quais nunca dediquei atenção nenhuma, tempo algum, mesmo quando criança – talvez não fosse infantil bastante para isso. Não conheço o ateísmo como resultado, menos ainda como acontecimento: em mim ele é óbvio por instinto. Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores – no fundo até mesmo uma grosseira proibição para nós: não devem pensar![...]
Minha experiência me dá o direito de desconfiar em princípio dos impulsos chamados “desinteressados”, de todo o “amor ao próximo”, sempre disposto à palavra e ao ato. Eu o vejo em si como fraqueza, como caso especial de incapacidade de resistência aos estímulos – a compaixão passa por virtude apenas entre os ‘décadants’. O que lanço ao rosto dos compassivos é que lhes escapa facilmente o pudor, a delicadeza, a reverência às distâncias, que compaixão cheira instantaneamente a plebe e assemelha-se às más maneiras a ponto de com elas confundir-se – que mãos compassivas podem por vezes interferir destruidoramente em um grande destino, em uma solidão ferida, em um privilégio à culpa grave.
Não quero “crentes”, creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas... Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo: perceberão por que publico este livro antes, ele deve evitar que se cometam abusos comigo...
Eu sou, no mínimo, o homem mais terrível que até agora existiu; o que não impede que eu venha a ser o mais benéfico. Eu conheço o prazer de destruir em um grau conforme a minha força para destruir – em ambos obedeço à minha natureza dionisíaca, que não sabe separar o ‘dizer Sim’ do ‘fazer Não’. Eu sou o primeiro ‘imoralista’: e com isso sou o destruidor par excellence.
No fundo são duas as negações que a minha palavra ‘imoralista’ encerra. Eu nego, por um lado, um tipo de homem que até agora foi tido como o mais elevado, os bons, os benévolos, os benéficos; nego, por outro lado, uma espécie de moral que alcançou vigência e domínio como moral em si – a moral de ‘décadance’, falando de modo mais tangível, a mora cristã. Seria legítimo ver a segunda contestação como a mais decisiva, pois a superestimação da bondade e da benevolência já me parece, de modo geral, conseqüência da ‘décadance’, sintoma da fraqueza, incompatível com uma vida ascendente e afirmadora: o negar e o destruir são condição para o afirmar.
A última linha de ‘Ecce homo’ diz:
“Fui compreendido? Dionísio contra o Crucificado”.
sábado, 27 de junho de 2009
Why Reading Matters (BBC)

Este documentário da BBC Four foi levado ao ar no mês de Fevereiro deste ano. O documentário tem duração de 60 minutos. Embora não esteja mais disponível no site da BBC iPlayer cujo link é indicado no texto abaixo, você pode encontrá-lo em 6 partes no You Tube. Basta seguir o link abaixo onde encontra a primeira parte e depois procurar pelas demais em "Related videos".
http://www.youtube.com/watch?v=QdwFFFBCPzw&feature=related
Science writer Rita Carter tells the story of how modern neuroscience has revealed that reading, something most of us take for granted, unlocks remarkable powers. Carter explains how the classic novel "Wuthering Heights" (O Morro dos Ventos Uivantes) allows us to step inside other minds and understand the world from different points of view, and she wonders whether the new digital revolution could threaten the values of classic reading.
The documentary, about the incredible power that reading unlocks in the brain, features Philip Davis, editor of The Reader magazine, investigating the ‘Shakespeared Brain’ - how the shapes of Shakespeare’s lines and sentences effect our minds - and The Reader Organisation’s pioneering outreach project Get Into Reading.
Professor Thierry, an expert in language processing and particular semantics (the meaning of language) contributed to the programme (http://www.bbc.co.uk/programmes/b00hk7w3). The programme makers were particularly interested in research on Shakespeare conducted by Thierry in collaboration with Professor Philip Davis at the University of Liverpool.
The experiment, run in Thierry's lab in the School of Psychology at Bangor University found that Shakespearean language excites positive brain activity, adding further drama to the bard's plays and poetry.
Shakespeare uses a linguistic technique known as functional shift that involves, for example, using a noun to serve as a verb. This process causes a sudden peak in brain activity and forces the brain to work backwards in order to fully understand what Shakespeare says. Remarkably however, the neuroimaging data obtained shows that this surprise effect leaves the processing of meaning unaltered, the reader (or listener) understands the message equally well.
Professor Philip Davis, from the Liverpool University's School of English, said: "The brain reacts to reading a phrase such as 'he godded me' from the tragedy of Coriolanus, in a similar way to putting a jigsaw puzzle together. If it is easy to see which pieces slot together you become bored of the game, but if the pieces don't appear to fit, when we know they should, the brain becomes excited. By throwing odd words into seemingly normal sentences, Shakespeare surprises the brain and catches it off guard in a manner that produces a sudden burst of activity - a sense of drama created out of the simplest of things."
Experts believe that this heightened brain activity may be one of the reasons why Shakespeare's plays have such a dramatic impact on their readers.
Twenty participants were monitored using an electroencephalogram (EEG) as they read selected lines from Shakespeare's plays. The findings were published in the prestigious journal Neuroimage last year.
It’s not available on BBC iPlayer anymore but you can watch on YourTube - [BBC] Why Reading Matters in 6 parts.
domingo, 21 de junho de 2009
Enrique Vila-Matas – Suicídios exemplares

Com tradução de Carla Branco, publicado pela Cosac & Naif em maio de 2009 – 208 páginas.
Suicídios exemplares foi o primeiro livro publicado do escritor catalão, Enrique Vila-Matas, isto em 1991. Hoje aos 61 anos já possui 28 livros publicados, mas ainda é pouco conhecido aqui no Brasil. Vila-Matas é um homem que muda e se deixa levar pelos livros que escreve. “Passo por muitas evoluções e discordo inclusive de um livro que eu possa ter publicado um ano antes, porque sou uma pessoa que discorda de si mesma e que, com frequência, está colocando em dúvida o que diz”, diz ele em entrevista ao Globo.
Este livro reúne 11 contos, cujo tema central é a idéia do suicídio que surge em algum momento das vidas de seus personagens principais. Como diz a sinopse da editora, “a ideia de se matar torna-se a saída para as decepções ou ausências nas vidas dos personagens, mas algo sempre acontece e muda o desfecho esperado. Com narrativas cheias de imaginação, sutileza e inteligência, a obsessão pelo suicídio acaba, paradoxalmente, por afastar a tentação da morte, e torna-se um incentivo para a vida, transformando positivamente a ação dos heróis de Vila-Matas”.
“Sofisticada ou impulsiva, ponderada ou captada no ar em um instante de tédio, a ideia do suicídio aqui nunca é um signo de derrota”, escreve o argentino Alan Pauls no texto de apresentação desta edição. “É um princípio de potência: algo na vida range, se abre e começa a ser possível quando as criaturas que povoam estas páginas se deixam possuir pela ideia de se matar.”
Se em alguns trechos encontramos cenas cômicas e leves, podemos encontrar em outros, explicações sérias sobre a idéia do suicídio como sendo uma forma de exercer o poder de escolha diante da vida como neste trecho do conto “As noites da íris negra”:
“Não tenham pressa”, costumava a dizer, “sem a possibilidade do suicídio eu já teria me matado há muito tempo... O suicídio é um ato afirmativo, vocês podem cometê-lo quando quiserem. Por que a pressa? Acalmem-se. O que torna a vida suportável é a idéia de que podemos escolher quando abandoná-la”.
Em outros apresenta muito mais do que simples conjecturas sobre a melhor forma de atingir o suicídio, como por exemplo, no conto “Morte por saudade”, onde usa de um termo brasileiro para compor uma bela e melancólica história finalizada em Lisboa desta forma:
“Mas não saltarei no vazio, amigo Horácio. Vou deixar que me invada toda essa tendência a recuperar a infância, toda essa nostalgia por um passado que, à medida que me aproximo do Miradouro de Santa Luzia, percebo ir conciliando com o presente, até o ponto de ter a impressão de não estar retrocedendo no tempo, mas quase a eliminá-lo. Vou me sentar para esperar, haverá uma cadeira para mim nesta cidade, e nela poderei ver todos os entardeceres, calado, praticando a saudade, o olhar fixo na linha do horizonte, esperando a morte que já se desenha em meus olhos, e que aguardarei, sério e calado, todo o tempo que for necessário, sentado diante deste infinito azul de Lisboa, sabendo que à morte lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera”.
E para finalizar, um resumo do conto “Rosa Schwarzer volta à vida”, onde expõe a vitória da negação ao suicídio:
Rosa é vigilante do museu de Düsseldorf, que passa a maior parte do dia sentada em sua cadeira nos fundos da última e mais escondida das salas. Ao fazer 50 anos numa segunda feira, quando o museu não funciona, “acorda angustiada, movendo-se como uma marionete, tateando o vazio incolor e insípido de sua triste vida”.
Ao se deparar com a indiferença de seu marido (que a trai descaradamente com a vizinha) e os dois filhos (o caçula tinha uma doença mortal e não sabia) durante o café da manhã, que apesar de haverem assegurado anteriormente que, iam fazer um esforço para que todos se reunissem para seu almoço de aniversário, vão um de cada vez apresentando justificativas para não poderem cumprir a promessa.
“Esta vida para quê?” pensa ela, e assim surge a primeira idéia de por fim a aquela triste e tediosa vida. Depois de uma manhã em que decide mudar totalmente sua rotina, jogando pro alto o tal almoço, segue numa sucessão de pensamentos suicidas, mas que vão se alterando ao decidir fazer coisas que nunca havia feito antes. “Sua vida, ao entrar no reino do obscuro e do desespero, tinha se transformado paradoxalmente em algo, por fim, um pouco animado”.
No dia seguinte, depois de um ataque histérico na noite passada em sua casa, encontra-se novamente sentada em sua cadeira no museu. “Está ligeiramente inquieta esta manhã. E não é pra menos, pois o tambor (do país dos suicidas representado em sua imaginação pelo príncipe negro de uma das telas do museu onde trabalha) a chama com insistência cada vez maior, convidando-a a deixar o museu e a vida, e é tanta a sedução exercida pelo príncipe negro que, a qualquer momento, ela poderia sucumbir à nova oportunidade de tirar a própria vida. Na sétima vez, vou conseguir pensa Rosa Schwarzer, e pouco depois lembra-se da garrafa de cianureto (ou de uísque, não tem certeza) que havia ficado no bolso do casaco e testar a sorte. Se for só uísque, talvez ajude a despertar, porque está caindo de sono, ainda que não esteja segura de que o uísque desperte, nunca provou uma gota de álcool e não sabe como este pode agir sobre ela, mas vai arriscar. Se não for uísque, mas cianureto, vai viajar para o outro lado da existência, para aquele outro mundo, longínquo e sedutor, no qual vive o príncipe dos suicidas, que é apaixonado por ela”.
Fica tonta, sem entender se tomou veneno ou se é o efeito do álcool, e empreende uma viagem psicodélica. Ao final desta viagem, o príncipe negro, “lhe adverte que só poderá voltar atrás em sua viagem se inalar a névoa azul ardente do país dos suicidas. Em seguida, Rosa compreende que se trata de suicidar-se novamente e, neste caso de praticar o gesto ao contrário, um suicídio que a fará cair, não do lado da beleza, mas do lado oposto, do lado da vida. E Rosa Schwarzer não pensa duas vezes, se aproxima de uma das colunas de névoa e aspira profundamente, com toda a força, e em poucos instantes se encontra de novo em sua cadeira do museu, junto da qual descansa, quebrada em mil pedaços, a garrafinha embriagante”.
“Ninguém presenciou a fulgurante viagem. E Rosa Schwarzer, abre bem os olhos e, ainda um pouco tonta, recompõe sua figura enquanto comprova que tudo continua igual. Ou melhor, quase igual, porque já não se ouve o clamor apaixonado e constante do tambor dos suicidas. (...) Com um sentimento amargo, mas no fundo também muito aliviada, Rosa sente que voltou a sumir no crisalho de sua vida, e se encontra bem, como se houvesse compreendido que, depois de tudo, não sabemos – eu direi com as palavras do poeta – se na verdade as coisas não são melhores assim: escassas de propósito. Talvez sejam melhores assim: reais, vulgares, medíocres, profundamente estúpidas. Além do mais, pensa Rosa, aquela não era minha vida”.
sábado, 13 de junho de 2009
Proust por Samuel Beckett

Escrito em 1931 enquanto ainda pensava se seguia a carreira acadêmica como professor do Trinity College de Dublin, o jovem Samuel Beckett aos 25 anos publicou este que é seu ensaio mais extenso de crítica literária. E em se tratando de Beckett, entende-se porque não podia ter escolhido um autor e obra mais extensa e complexa como “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust. O resultado deste ensaio anuncia o grande escritor por vir e fica evidente a admiração sobre o modo como Proust se valeu para explicar o que é a essência do ser no homem e a influência deste em sua obra .
Tempo, Hábito e Memória – formam a estrutura nervosa e sutil da obra de Proust que é dissecada por Beckett e exposta numa leitura incisiva, de onde se pode também perceber a gênese de sua poética radical de narrativa, que seria totalmente revelada mais tarde em seus romances tão desolados e belos.
O Hábito e a Memória – o primeiro embota os sentidos, aprisiona coisas e pessoas sob nomes ou conceitos e nos poupa e priva do espetáculo primário, misterioso e fértil da vida sob o império do Tempo. E a Memória, ou antes, aquilo que Proust chama de “memória voluntária” faz as vezes de ordenança: no dizer de Beckett, pendura trapos de passado num varal, para consultá-los como um índice remissivo. O que realmente interessa a Proust é aquilo que vem do que ele chama de memória involuntária, que pode ser deflagrada a qualquer momento, por negligência ou agonia do Hábito. A memória involuntária é explosiva, uma deflagração total, imediata e deliciosa de sentimentos. Segundo Beckett este milagre aparece em Proust doze ou treze vezes, sendo a primeira e mais famosa – o episódio da madeleine embebida no chá. Proust adota essas experiências místicas como Leitmotiv de sua composição.
Extraindo uma síntese do pensamento proustiano, por suas próprias palavras: “Se não existisse o Hábito, a Vida teria, por certo, uma aparência deliciosa para todos aqueles a quem a Morte ameaça a cada momento, isto é, para toda a Humanidade".
Os trechos a seguir falam por si próprios e servem como demonstração da articulação de idéias do jovem Beckett.
“As criaturas de Proust são vítimas desta circunstância e condição predominante: o Tempo. Não há como fugir das horas e dos dias. Nem de amanhã nem de ontem. Não há como fugir de ontem porque ontem nos deformou, ou foi por nós deformado. O estado emocional é irrelevante. Sobreveio uma deformação. Ontem não é um marco da estrada ultrapassado, mas um diamante na estrada batida dos anos e irremediavelmente parte de nós, dentro de nós, pesado e perigoso. Não estamos meramente mais cansados por causa de ontem, somos outros, não mais o que éramos antes da calamidade de ontem.” (pág. 11)
“As leis da memória estão sujeitas às leis mais abrangentes do hábito. O hábito é o acordo efetuado entre o indivíduo e seu meio, ou entre o indivíduo e suas próprias excentricidades orgânicas, a garantia de uma fosca inviolabilidade, o pára-raios de sua existência. (...) Respirar é um hábito. A vida é um hábito. Ou melhor, a vida é uma sucessão de hábitos, posto que o indivíduo é uma sucessão de indivíduos (uma objetivação da vontade do indivíduo, diria Schopenhauer), o pacto deve ser continuamente renovado, a carta de salvo-conduto atualizada.” (pág. 17)
“O mais bem sucedido experimento de evocação é incapaz de projetar mais do que o eco de uma sensação passada, porque, como um ato intelectivo, está condicionado pelos preconceitos da inteligência, que abstrai de cada dada sensação, como ilógico e insignificante, como intruso discrepante e frívolo, qualquer gesto ou palavra, perfume ou som que não se possa enquadrar no quebra-cabeça de um conceito. Mas a essência de qualquer nova experiência está contida precisamente nesse elemento misterioso que o arbítrio de plantão rejeitará como anacronismo. É ele o eixo em torno ao qual se dá o giro da sensação, é ele o centro de gravidade de sua coerência. De modo que nenhum esforço de manipulação voluntária poderá reconstruir em sua integridade uma impressão que a vontade, por assim dizer, forçou à incoerência. Mas se, por um acidente e dadas as circunstâncias favoráveis (um relaxamento do hábito de reflexão do sujeito e uma redução do raio de sua memória, uma diminuição geral da tensão da consciência, conseqüente a um período de extremo desânimo), se por algum milagre de analogia a impressão central de uma sensação passada reaparece como estímulo imediato, capaz de ser identificado instintivamente pelo sujeito com o modelo da duplicação (cuja pureza integral foi conservada, porque esquecida), então a sensação passada em sua totalidade, não seu eco ou sua cópia, mas a sensação ela mesma, aniquilando qualquer restrição espacial e temporal, vem prontamente envolver o sujeito em toda a beleza de sua infalível proporção.” (pág. 76)
“O ponto de partida da demonstração proustiana não é a aglomeração cristalina, mas seu núcleo – o cristalizado. A mais trivial experiência, ele afirma, está incrustada de elementos que não podem ser relacionados logicamente a ela e que conseqüentemente foram rejeitados por nossa inteligência: está encarcerada em um vaso perfumado com certa fragrância, colorido por certa cor e elevado a uma certa temperatura. Esses vasos estão suspensos ao longo da linha de nossos anos e, inacessíveis à memória inteligente, conservam-se de certo modo imunes, a pureza de seu conteúdo climático resguardada pelo esquecimento, cada um mantido à distância, em sua data. De forma que, quando o microcosmo encarcerado é assediado da maneira descrita, sentimo-nos inundar por um novo ar e um novo perfume (novo precisamente porque já experimentado) e respiramos o verdadeiro ar do Paraíso, do único Paraíso que não é o sonho de um louco, do Paraíso que se perdeu.” (pág. 78)
domingo, 7 de junho de 2009
O que pode a literatura? – Parte 2

Charlotte Delbo encontra-se numa prisão em Paris, presa por ter conspirado contra o invasor alemão. O ano é 1942. Ela está sozinha em sua cela; submetida ao regime de “Noites e nevoeiro”(1), ela não tem acesso à leitura. Mas a detenta da cela de baixo pode retirar livros da biblioteca. Então, Delbo tece uma corda com fios retirados de seu cobertor e faz subir um livro pela janela. A partir desse momento, Fabrice Del Dongo(2) passa a ser seu companheiro de cela. Apesar de não falar muito, ele permite que ela interrompa sua solidão. Alguns meses mais tarde, no vagão de animais que a conduz a Auschwitz, Dongo desaparece, mas Charlotte ouve uma outra voz, a de Alceste, o misantropo(3), que lhe explica em que consiste o inferno para o qual ela se dirige e lhe mostra o exemplo da solidariedade. No campo, outros heróis sedentos do absoluto lhe fazem visita: Electra, Don Juan, Antígona. Uma eternidade mais tarde, de volta à França, Delbo sofre para voltar à vida: a luz cegante de Auschwitz varreu toda ilusão, proibiu toda imaginação, declarou falsos os rostos e os livros... até o dia em que Alceste retorna e a arrebata com sua palavra. Em face do extremo, Charlotte Delbo descobre que as personagens dos livros podem se tornar companheiras confiáveis. “As criaturas do poeta”, ela escreve, “são mais verdadeiras que as criaturas de carne e osso, porque são inesgotáveis. É por essa razão que elas são minhas amigas, minhas companheiras, aquelas graças às quais estamos ligados a outros seres humanos, na cadeia dos seres e na cadeia da história.
(1) Referência ao documentário de Alain Resnais, “Nuit et Brouillard” (1955), primeiro a abordar e mostrar ao mundo os horrores dos campos de concentração nazistas. A expressão “noite e nevoeiro” é retirada do decreto alemão “Nacht und Nebel”, que determinava o encarceramento em locais secretos dos acusados de conspirar contra o regime nazista.
(2) Fabrice Del Dongo é o herói do romance “A cartuxa de Parma (1839), de Stendhal.
(3) Alceste é personagem da peça “O Misantropo” (1666), de Molière.
Ela escreveu sua obra principal, a trilogia publicada como “Auschwitz and After” ("None of Us Will Return", "Useless Knowledge" e "The Measure of Our Days,") nos anos imediatamente após a guerra, mas sua publicação foi impedida até 1965 por razões políticas. O último volume foi publicado em 1970 e 1971. A tradução completa de todo o trabalho (a trilogia), só foi publicada nos Estados Unidos em 1995, dez anos após a morte da autora.
Fontes: Tzvetan Todorov - A literatura em perigo / Wikipidia
sábado, 30 de maio de 2009
Milan Kundera – O livro do riso e do esquecimento

Publicado pela Companhia de Bolso (Companhia das Letras) em edição de bolso em 2008 – 272 páginas, com tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Sua publicação original foi na França em 1978.
Milan Kundera nasceu em Brno, na República Tcheca, em 1929. Sofreu na pele as conseqüências da Primavera de Praga, durante a invasão soviética em 21 de Agosto de 1968. Envolvido com a revolução, foi proibido de lecionar e seus livros retirados das bibliotecas públicas de todo o país. Emigrou em 1975 para Paris e após perder a cidadania Tcheca assumiu a França como sua nova pátria.
Conheci a obra de Kundera, provavelmente como a maioria das pessoas a conheceu, através do seu maior sucesso, “A insustentável leveza do ser” livro publicado em 1984 que foi transposto para o cinema em 1988, sob a direção de Philip Kaufman, tendo Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin no elenco. Depois deste estrondoso sucesso, li também “Risíveis Amores”, que pegando uma carona na onda do filme, obteve um grande sucesso na mesma época, embora tenha sido escrito muito antes (publicado em 1970).
Já “O livro do riso e do esquecimento” só atraiu minha atenção, depois de ler meses atrás, comentários sobre ele, no livro “Entre Nós” de Philip Roth, que já comentei aqui. E a impressão que tenho agora é – como pude deixar de lado por tanto tempo um livro tão especial como este?
O livro é composto de sete partes que inicialmente aparentam ser contos independentes entre si, mas que na realidade são histórias que se entrelaçam tendo como pano de fundo o cotidiano da República Tcheca após a invasão russa de 1968, onde as desilusões da juventude, a desorientação dos intelectuais, a prepotência e truculência dos líderes políticos formam o mote das histórias. É nesse caldeirão social e político que Kundera articula o destino individual dos personagens e o destino coletivo de um povo, a vida ordinária de pessoas comuns e a vida extraordinária da História, e ainda soma a tudo isso parte de sua autobiografia.
Repetindo um pensamento crítico que li, Kundera desenvolveu um estilo a que ele chama de ‘novela e reflexão’, diferenciando-se daquelas de narração, como as de Balzac e de Alexandre Dumas, e das de descrição, como as de Flaubert.
Suas histórias são apresentadas com uma grande liberdade formal. Sem o rigor típico de romances com um início, meio e fim, ele começa suas histórias apenas para deixá-las no ar, partindo para profundas reflexões que mais lembram ensaios filosóficos. Quando nos damos conta, Kundera já voltou à sua história, ou então já começou outra, na qual os temas de outra história anterior reaparecem, sob novas formas. O "Esquecimento" aparece em muitas variações, desde o drama de Tamina, uma das personagens centrais, que aos poucos vê apagar-se da memória a fisionomia de seu marido morto, à amnésia cultural promovida pelo comunismo russo em Praga, eliminando nomes de ruas para apagar a História de todo um povo. O "Riso", por sua vez, é ora o riso alienado, ora o riso simplesmente alegre, ora o riso desesperado, ora o riso consciente, o riso de quem enxerga o próprio ridículo.
As histórias de cada personagem com temas semelhantes mas desenvolvidas de formas bem diferentes, são sutilmente entrelaçadas, formando um romance de uma maneira diferente e brilhante. Aliás, podemos resumir esta análise usando a própria definição do livro feita pelo autor no livro:
"Este livro todo é um romance em forma de variações. As diferentes partes se seguem como as diferentes etapas de uma viagem que conduz ao interior de um tema, ao interior de um pensamento, ao interior de uma só e única situação cujo sentido se perde para mim na imensidão".
A idéia das variações sobre um tema, é brilhantemente desenvolvida no trecho onde em tom autobiográfico de grande força, ele lembra de seu pai que foi músico e nos últimos anos de sua vida foi perdendo a capacidade de falar.
“No começo, fugiam-lhe apenas algumas palavras, ou, em seu lugar, ele dizia outras parecidas com essas, e logo começava a rir. Mas, no final, ele só conseguia pronunciar muito poucas palavras, e toda vez que tenatava precisar seu pensamento, terminava sempre com a mesma frase, uma das últimas que lhe restavam: “É estranho”.
Ele dizia “é estranho”, e havia em seus olhos o imenso espanto de tudo saber, mas de nada poder dizer. (...)
Eu o levava muitas vezes para dar seu passeio. Fazíamos invariavelmente a volta no mesmo quarteirão, papai não tinha força para ir mais longe. (...) Durante esses passeios, falávamos de música. Quando papai falava normalmente, eu lhe fazia poucas perguntas. E agora eu queria recuperar o tempo perdido. Então falávamos de música, mas era uma conversa estranha entre alguém que não sabia nada, mas conhecia palavras em grande número, e alguém que sabia tudo, mas não conhecia um única palavra.
Ao longo do dez anos de sua doença, papai escreveu um livro grosso sobre as sonatas de Beethoven. Escrevia sem dúvida melhor do que falava, mas, mesmo escrevendo, tinha cada vez mais dificuldade para encontrar as palavras que queria usar, e seu texto se tornava incompreensível porque ele formava palavras que não existiam.
Um dia me chamou em seu quarto. Tinha aberto sobre o piano as variações da Sonata opus 111. Disse-me “olhe” mostrando a partitura (ele não conseguia mais tocar piano), repetiu “olhe” e ainda conseguiu dizer depois de um longo esforço: “Agora eu sei!” e continuou tentando me explicar alguma coisa importante, mas sua mensagem se compunha de palavras totalmente incompreensíveis, e, notando que não o entendia, olhou-me com surpresa e disse: “É estranho”.
Evidentemente, sei o que ele queria falar, porque ele se fazia essa pergunta havia muito. As variações eram a forma favorita de Beethoven no final de sua vida. Seria possível pensar, à primeira vista, que é a forma mais superficial, uma simples exibição de técnica musical, um trabalho que convém mais a uma rendeira do que a Beethoven. E Beethoven (pela primeira vez na história da música) fez dela uma forma soberana, nela registrou suas mais belas meditações.
Sim, é uma coisa muito conhecida. Mas papai queria saber como se deve compreendê-la. Por que exatamente variações? Que sentido se esconde por trás?
Era por isso que ele havia me chamado em seu quarto e me mostrava a partitura dizendo: “Agora eu sei!””
terça-feira, 26 de maio de 2009
E o Man Booker International Prize de 2009 vai para: Alice Munro

O “Man Booker International Prize” dá £60,000 ao vencedor, premiando a cada dois anos um autor vivo pelo conjunto da obra de ficção que tenha tido uma contribuição de destaque no cenário mundial. O primeiro agraciado por esta premiação foi Ismail Kadaré em 2005 e depois Chinua Achebe em 2007.
Munro é mais conhecida por seus contos e é considerada uma das escritoras Canadenses mais celebradas. Ao receber a notícia de sua vitória, ela disse, “Estou completamente surpresa e encantada.”
Os jurados do “Man Booker International Prize 2009” foram: Jane Smiley, escritora; Amit Chaudhuri, escritor, professor, ensaísta e crítico literário; e o escritor, roteirista de cinema e ensaísta, Andrey Kurkov. Os jurados fizeram o seguinte comentário sobre a vencedora:
“Alice Munro é mais conhecida como uma escritora de contos, contudo ela traz tanta ou mais profundidade, sabedoria e precisão às suas histórias do que a maior parte dos romancistas consegue obter com todos os seus romances durante a vida.”
Para mais detalhes clique aqui
segunda-feira, 18 de maio de 2009
O que pode a literatura? – Parte 1
Em sua Autobiografia, publicada logo após sua morte, em 1873, John Stuart Mill narra a intensa depressão da qual foi vítima aos 20 anos. Ele se torna “insensível a toda alegria, assim como a toda sensação agradável, num desses mal-estares em que tudo o que em outras ocasiões proporciona prazer se torna insípido e indiferente”. Todos os remédios que experimenta se mostram ineficazes, e sua melancolia se instala de forma contínua. Ele continua a cumprir mecanicamente os gestos habituais, mas sem nada sentir. Depois, pouco a pouco, se dissipa. Um livro que Mill lê por acaso naquele momento tem papel particular em sua cura: trata-se de uma coletânea de poemas de Wordsworth. Mill encontra no livro a expressão de seus próprios sentimentos sublimados pela beleza dos versos. “Eles me pareceram ser a fonte na qual eu podia buscar a alegria interior, os prazeres da simpatia e da imaginação que todos os seres humanos, podem compartilhar [...]. Eu precisava que me fizessem sentir que há na contemplação tranqüila das belezas da natureza uma felicidade verdadeira e permanente. Wordsworth me ensinou tudo isso não somente sem me desviar da consideração dos sentimentos cotidianos e do destino comum da humanidade, mas também duplicando o interesse que eu trazia por eles”.
O texto acima foi extraído do livro “A Literatura em Perigo” de Tzvetan Todorov, sendo que as partes entre aspas são do livro “Autobiografia” de J. S. Mill.
sábado, 9 de maio de 2009
Samuel Beckett - Molloy

Molloy de Samuel Beckett (1906 – 1989) é um daqueles livros difíceis de classificar. Ele que é considerado como um dos fundadores do teatro do absurdo e é considerado um dos principais autores do século 20, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1969, é capaz de nos deixar num estado estupefato, após a leitura de um seus romances.
Molloy, publicado pela Editora Globo, conta com a tradução e prefácio de Ana Helena Souza, uma especialista por assim dizer, em Beckett, alem da cronologia e bibliografia de Beckett. É como ela diz em seu prefácio – foi com a publicação de Molly e Malone morre, ambos em 1951, que Samuel Beckett fez sua verdadeira estréia como escritor em língua francesa (abro o parêntesis para lembrar que ele era Irlandês). Antes, sua produção mais conhecida em inglês era o romance Murphy (1938) e um ensaio sobre Proust. O romance Watt, terminado em 1945, permanecia inédito. Molloy que com Malone morre e O inominável compõem a chamada trilogia do pós-guerra, continuam atraindo a investigação crítica mais exigente. Embora o teatro de Beckett seja em geral mais conhecido que a prosa, os textos ficcionais colocam-se no mesmo nível de importância que os dramáticos. Uma vez, o próprio autor colocou-os em um patamar mais elevado, chamando mais atenção para os romances, eclipsados pelo imenso sucesso de Esperando Godot.
O livro está dividido em duas partes, e ambas são narradas em primeira pessoa, na primeira parte por Molloy e na segunda por Moran. A narrativa acontece enquanto cada um está escrevendo sua própria história e Beckett utiliza muito bem da conversa do narrador com o leitor para definir ou justificar suas escolhas de narrativa. Trata-se do famoso “narrador-narrado”, assim sucintamente definido pelo autor.
Molloy se apresenta, como um tipo vagabundo, já com mais de 50 anos, inicialmente com uma perna dura (depois as duas) que precisa de muletas para andar, mas que não se separa de sua amada bicicleta, e que insiste em encontrar sua mãe, apesar de não saber ao certo nem como encontrá-la nem o que o faz procurá-la. Talvez em busca de suas origens, ou para dar um sentido para a vida. A tônica da narrativa é justamente sua incompetência por definir as situações em que se encontra, sua confusão e as incertezas delas decorrentes, alem da degradação física cada vez maior que se opera neste caminho. Seu estilo de narrativa alternando reflexões profundas por meio do fluxo de consciência com uma confusão de idéias geradas por situações incompreensíveis é notadamente influenciado por James Joyce, de quem Beckett foi grande amigo e admirador. Sintetizar este personagem, não é tarefa fácil e nem tem muito sentido fazê-lo, pois o importante da narrativa é descobrir a construção do personagem através de fragmentos de memória, e das experiências que constituíram seu próprio eu.
Já Moran se apresenta numa narrativa bem mais organizada e de mais fácil compreensão. Seu relacionamento conturbado, rancoroso e de grande impacto psicológico com seu filho adolescente de 13 anos, é talvez o traço mais marcante. Moran é um “agente”, que não sabemos para que, nem para quem trabalha (ele mesmo diz nunca ter conhecido seu chefe pessoalmente, sabe apenas o nome). Recebe a estranha incumbência através de um mensageiro de encontrar Molloy sem saber o que deve fazer após encontrá-lo (o que me fez lembrar Kafka). Ao longo de sua narrativa, vão aparecendo fatos ou situações que vão indicando semelhança com alguns aspectos da história de Molloy, sendo algumas mais sutis e outras mais óbvias, quando, por exemplo, Moran passa a ter o mesmo problema no joelho. Tudo isso fica ainda mais patente quando Moran atinge um desmoronamento físico e mental semelhante ao estado de Molloy narrado na primeira parte. Pode-se chegar então à dedução de que são a mesma pessoa, sendo Moran o Molloy antes da degradação que se lhe abate. Mas esta conclusão é refutada por muitos críticos.
Resumindo uma idéia abordada por Ana Helena Souza no final de seu prefácio – o importante da obra, não é o de encontrar um sentido para tudo, mas sim ser interpretada, procurando aproximar-se do nível de consciência dos personagens, abrindo-se assim para uma nova e mais rica, embora difícil, experiência.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Paragraph – Um lugar de trabalho para escritores

Conheci esta dica no programa “Lugar Incomum” que passa no canal Multishow e achei muito interessante.
Trata-se de um espaço no centro de Nova York, concebido basicamente para atender escritores iniciantes, free-lancers, e outros, que desejam ter uma espécie de escritório ou um lugar fora de suas casas para poderem ler e escrever, sem serem incomodados com qualquer problema doméstico, num ambiente tranqüilo e agradável, e até mesmo para atender uma necessidade de alguns, que buscam uma rotina do tipo de quem trabalha num emprego em um escritório fixo, como disse um dos freqüentadores.
Para se tornar sócio e freqüentar, é necessário preencher um formulário escolhendo um dos quatro tipos de sócios disponíveis, e, segundo o site, não é necessário que você já tenha publicado algo, mas que tenha muita vontade de escrever e intenções sérias (e é claro, que pague as mensalidades).
Copiei abaixo parte do conteúdo do site. Quem quiser conhecer melhor é só acessar:
“Paragraph is dedicated to providing an affordable and tranquil working environment for writers of all genres. We are open 24 hours a day, 7 days a week, 7 days a year. Paragraph is located on 14th street between Fifth and Sixth Avenues, convenient to Union Square.
Tucked away on busy 14th Street, Paragraph occupies the entire top floor of a three-story building. The 2500 sq. ft. loft space is divided into two areas — a writing room and a kitchen and lounge area.
Paragraph was created by writers for writers, with an understanding that writers work best in a quiet, comfortable space away from the hurry and obligation of urban life.
Lila Cecil and Joy Parisi met at The New School's graduate creative writing program. Tired of slogging it out in jobs they did not have their hearts in and desperate for a quiet place to write and a community of writers similar to the one they had found in graduate school, they decided to open their own writing center. A year and a half later, Paragraph was born."
Read more about Paragraph in The New York Times and Springwise.
sábado, 2 de maio de 2009
John Fante – Pergunte ao pó

“Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. (...) Nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas que me cercavam. Parecia que todo mundo estava fazendo jogo de palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados excelentes escritores. O que escreviam era uma mistura de sutileza, técnica e forma, e era lido, ensinado, ingerido e passado adiante.
Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava?
Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. (...) As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. (...) E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados com uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim. (...) O livro era Pergunte ao pó e o autor, John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda.”
John Fante (1909 – 1983) é um dos mais importantes nomes da literatura americana e seus livros influenciaram a geração beat e muitos escritores, dentre eles, Charles Bukowski, que assina o prefácio parcialmente copiado acima.
Los Angeles, década de 30. No auge da depressão, Arturo Bandini sonha se tornar um escritor famoso. Na tentativa de escrever algo ele se hospeda em um quarto barato de hotel, mas logo o plano se mostra um fracasso: o dinheiro de Arturo está acabando e ele ainda não conseguiu escrever. É quando ele conhece Camilla Lopez, uma garçonete mexicana que sonha conseguir um bom marido e deixar o emprego. Juntos eles vivem uma relação conturbada, baseada em desejo, ciúmes e desprezo.
O romance de John Fante "Pergunte ao Pó", de 1939, revela a poesia ferida, mas cheia de esperança dos sonhos dos "outsiders". O caso de amor e ódio apresentado no livro envolve não apenas a disputa entre o escritor Arturo Bandini e a garçonete Camilla Lopez, mas também a tensão entre a América branca, protestante e anglo-saxônica e o resto do país, a vergonha e o autoconhecimento de imigrantes que desejam desesperadamente serem considerados americanos, retratada de forma clara e contundente, na cidade de Los Angeles.

O livro foi transposto para o cinema por Robert Towne em 2006, que sonhava em levar o livro de John Fante ao cinema desde a década de 70, quando conheceu o autor durante o lançamento de Chinatown (1974).
O roteirista Robert Towne, que com seus excelentes trabalhos anteriores como, por exemplo, em "Chinatown" e "Shampoo", parecia ter credenciais suficientes para ser considerado o nome perfeito para traduzir esse livro importante para o cinema, assinando tanto o roteiro quanto a direção, e tendo Colin Farrell no papel de Arturo Bandini e Salma Hayek no de Camilla Lopez. Mas seu trabalho me decepcionou por ter abrandado o tom noir do livro e adotado o melodrama, ficando em certos momentos até meio perdido, entre um e outro, deixando de se aprofundar o suficiente nos personagens.
Uma pena...
domingo, 26 de abril de 2009
Vinhos de Corbières, Sul da França
Em geral quando falamos sobre vinhos franceses, surge sempre em primeiro lugar os famosos Boudeaux e em seguida os da Bourgongne. Alguns podem até mencionar os de Côtes de Rhône ou da Provance, mas dificilmente citariam os vinhos de Corbières. No entanto, a meu ver, pode-se encontrar nesta região, vinhos de excelente qualidade, com sabor e aroma muito agradáveis, em condições de equilíbrio com os das denominações mais famosas, se considerarmos vinhos de mesmo nível de cuidados de produção. Já experimentei alguns bem simples e me surpreenderam positivamente.

A região que recebe a denominação (AOC) de Corbières fica dentro da região administrativa denominada Languedoc-Roussillon, bem ao sul da França, e próximo a fronteira com a Espanha. Esta região que possui um solo argilo-calcáreo, recebe tanto a influência do mar Mediterrâneo como dos ares mais frios dos montes Pireneus na divisa com a Espanha e está dividida nos seguintes 11 “terroirs” ou micro-regiões: Vignoble de la Montagne d'Alaric, Saint-Victor, Fontfroide, Queribus, Boutenac, Termenès, Lézignan, Lagrasse, Sigean, Durban e Serviès.

Os vinhos tintos desta região são feitos principalmente a partir de uma combinação das uvas carignan, grenache, syrah, mouvèdre, cinsault e sua composição varia um pouco conforme o “terroir”, mas a uva de maior presença é a carignan. Possuem aroma de frutas maduras e compota, bem amplo e rico, harmonizando bem com carnes e queijos. Quem quiser conhecer um pouco mais, clique aqui.
Não sou sommelier, mas fica aí a sugestão de um simples apreciador de vinhos, para que na próxima vez que pensarem em comprar vinhos franceses, considerarem a opção de Corbières, que inclusive, podem oferecer uma relação custo-benefício melhor do que muitos Bordeaux que são vendidos por aí.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Blog – Por que tenho um?
Esta é uma pergunta que me veio à cabeça logo quando iniciei meu blog há quase um ano atrás. Inicialmente, fui movido apenas pela curiosidade em conhecer como funcionava este meio de comunicação, pois afinal, não queria ficar por fora das novas mídias e até mesmo da própria tecnologia que há por traz de todo esse mundo de comunicação através da internet. Busca de atualização era minha motivação.
Mas logo descobri que o grande desafio não era dominar uma nova ferramenta de edição de textos, imagens e sons. Não, este era o ponto mais fácil e se fosse somente por isso, em pouco tempo me desinteressaria. O que realmente passou a ser a motivação maior foi ter que pensar, analisar com profundidade, seja a respeito de uma obra literária, seja sobre outro tema que pudesse ser relevante e interessante escrever e apresentar sob meu ponto de vista no blog.
Nosso pensamento durante o dia a dia percorre por infinitas idéias e em geral movido por uma imensa quantidade de inputs que recebemos e não se fixa em algo com maior atenção, a menos é claro quando estamos resolvendo algum problema especialmente mais complexo, quer seja na nossa atividade profissional, quer seja em alguma situação especial da vida, quando precisamos ficar focado num assunto. Mas de um modo geral, não nos prendemos ou não fazemos maiores reflexões a tudo que lemos, ouvimos ou vemos, principalmente nesses tempos em que recebemos uma enxurrada de informações dos jornais, da TV, e mais ainda da internet. Somente quando temos que escrever sobre algo, é que nos esforçamos para colocar nossas idéias erráticas numa forma mais ordenada. E é através de questionamentos a mim mesmo, que procuro respostas às informações e idéias que me chegam, procurando encontrar um pensamento conclusivo, e organizá-lo de tal forma que possa ser não só escrito como lido e bem entendido por qualquer leitor.
A prática de selecionar e analisar fatos ou obras de arte relevantes e desenvolver minhas opiniões e conceitos me trouxeram a possibilidade não apenas de um crescimento cultural e de um aprofundamento crítico da vida, mas principalmente do desenvolvimento do autoconhecimento. Na realidade, o que descobri de melhor desta atividade é justamente o resultado do dialogo intenso e profundo comigo mesmo, ou numa palavra, o solilóquio. A atividade de escrever no blog passou a ser a conseqüência desta prática, e ela por si só, passou a possuir uma importância e a me dar um prazer, que não dependia tanto de haver leitores ou não, de haver comentários ou não, mas é claro que os havendo, tornava-a mais prazerosa, pois significa poder compartilhar minhas idéias e deixar de falar sozinho.
Porem, a partir do momento que descobri haver leitores e comentários, e que estes foram aumentando, me deparei com outra situação que não fazia idéia ao iniciar meu blog. Ao ter de lidar com comentários e respondê-los, a atividade passou a ocupar cada vez mais meu tempo. Ler e comentar nos blogues de amigos da blogosfera passou a ser outro desafio, quer seja por uma necessidade gerada pela curiosidade incitada por blogues de excelente qualidade, quer seja por uma questão de gentileza e retribuição pela a atenção recebida. A quantidade de blogues amigos e de interesse foram aumentando tanto, que hoje não tenho mais condições de acompanhá-los com a atenção que merecem, dentro do pouco tempo que tenho para dedicar a esta atividade.
Não tenho idéia ainda onde tudo isso vai dar. Penso em daqui em diante, escrever de modo mais pessoal, e de certo modo, mais arriscado, mas ainda não tenho um plano bem definido. Só sei que, continuar este blog passou de uma simples curiosidade a uma imensa vontade e até a uma necessidade extremamente importante, enfim, um grande desafio.
domingo, 19 de abril de 2009
Poema da dor
terça-feira, 14 de abril de 2009
Vinícius - filme de Miguel Faria Jr.

A montagem de um show é o ponto de partida para a reconstituição de uma trajetória sem paralelos no cenário cultural do país. A vida, os amigos, os amores de Vinicius de Moraes, autor de mais de 400 poesias e cerca de 400 letras de música. A essência criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio de Janeiro através de raras imagens de arquivo, entrevistas e interpretação de muitos de seus clássicos. Participação especial de Caetano Veloso, Carlos Lyra, Chico Buarque, Ferreira Gullar, Edu Lobo, Francis Hime, Gilberto Gil, Miúcha, Maria Bethânia, Tonia Carrero, Toquinho, Renato Braz, Yamandú Costa, Adriana Calcanhoto, Olívia Byington, Mônica Salmaso, Mariana de Moraes, Sérgio Cassiano, Zeca Pagodinho, MS Bom, Nego Jeil, Lerov, Mart Nália.
O texto a seguir foi compilado de várias fontes, porem adaptado e comentado por mim, apresentando inicialmente, alguns pontos mais importantes da obra de Vinícius e depois os comentários sobre o filme.
Vinícius foi um dos precursores da bossa nova, mas sua obra está muito alem da música, por onde é mais conhecido. Só para lembrar parte de sua extensa obra, cito, por exemplo, alem de suas centenas de poesias, a sua peça teatral “Orfeu da Conceição”. Do encontro entre Vinícius e Tom nasceria uma das mais brilhantes parcerias da música brasileira. Os dois compuseram a trilha sonora da peça, que incluía "Lamento no Morro", "Se Todos Fossem Iguais A Você", "Um Nome de Mulher", "Mulher Sempre Mulher" e "Eu e Você. Além destas canções, a dupla, Vinicius e Tom compuseram, entre outros clássicos, "A Felicidade", "Chega de Saudade", "Eu Sei Que Vou Te Amar", "Garota de Ipanema", "Insensatez"', entre outras belas canções.
Entre 1957 a 1958, o diretor de cinema francês Marcel Camus filmou “Orfeu Negro” no Rio de Janeiro, lançado no Brasil como “Orfeu do Carnaval”, uma adaptação da peça “Orfeu da Conceição” de Vinícius. Vinícius compôs para o filme "A Felicidade" e "O Nosso Amor". Um ano depois, o filme seria contemplado com a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Vinicius de Moraes, o poeta e diplomata que fazia canções, passou a ser referência de um novo estilo de vida, em especial a partir de 1958, que ficaria marcado como o início de um dos movimentos mais importantes da música brasileira, a Bossa Nova. O marco zero do movimento veio com o álbum "Canção do Amor Demais", gravado pela cantora Elizeth Cardoso. Além da faixa-título, o antológico LP contava ainda com outras canções de autoria da dupla Vinícius e Tom, como "Luciana", "Estrada Branca", "Outra Vez" e "Chega de Saudade", em interpretações vocais intimistas.
"Chega de Saudade" foi uma canção fundamental daquele novo movimento, especialmente porque o álbum de Elizeth contou com a participação de um jovem violonista, que com seu inovador modo de tocar o violão, caracterizado por uma nova batida, marcaria definitivamente a bossa nova e a tornaria famosa no mundo inteiro. O nome deste violonista é João Gilberto.
E nos anos 60 com a explosão da bossa-nova, “Garota de Ipanema” ganhou o mundo. Até sua morte, em 1980, Vinicius viveu intensamente as transformações da cidade em que nasceu.
Voltando a falar sobre o filme, a pluralidade artística de um dos maiores poetas brasileiros é retratada através de 14 depoimentos, as imagens de diplomata, autor teatral, crítico de cinema, letrista e um dos criadores da Bossa-Nova são apresentadas de forma bonita e sensível. A trajetória de Vinicius contada no filme não se restringe a sua imensa carreira artística. Sua vida pessoal, marcada por muitas paixões, nove casamentos e amizades fiéis, também é lembrada.
Além disso, o filme apresenta imagens inéditas que revelam as transformações ocorridas no Rio de Janeiro desde seu nascimento, em 1913. Naquela época, a cidade tinha um milhão de habitantes, sofria forte influência francesa, Ipanema e Leblon eram apenas praias desertas. Nos anos 50, a capital do país atravessou mudanças que se refletiam na música, cinema, teatro, moda e comportamento.
Para cariocas como eu, ou para aqueles que amaram o Rio daquela época, dá uma tremenda saudade, ao rever as imagens de arquivo, depoimentos e histórias contadas por Chico Buarque (muito a vontade como poucas vezes o vi), Ferreira Gullar, Antônio Cândido, Edu Lobo, Carlos Lyra, Tônia Carrero, Caetano Veloso, entre outros, que relembram a genial simplicidade de Vinicius com a espontaneidade, humor e liberdade de quem conversa em uma mesa de bar, exatamente como gostaria Vinicius.
O conceito de casa de portas abertas nasceu de Vínícius, tal era sua generosidade e vontade de compartilhar seus momentos de felicidade e de fertilidade criativa. Isso, numa época em que era permitido tal desprendimento e relaxamento diante da vida.
Há cenas antológicas, como a de Vinícius e Tom Jobim bêbados conversando sobre trivialidades, outra, onde Vinícius conta que ouviu num bar o papo da mesa vizinha, onde um dos caras convidava os demais a irem à casa de Vinícius, onde haveria bebida de graça e a vontade. Há a cena em que junto com Baden Powell, batiza sua nova criação musical de “Afro-samba”, mas há também cenas comoventes, onde aparece Vinícius já velho e doente, deitado num sofá, a ruminar sobre sua condição degradante, assim como o depoimento de Edu Lobo, que chega às lágrimas, ao recordar seu encontro com Vinícius, sozinho num bar, doente e deprimido, quando então ele lhe pergunta mais ou menos assim: “E aí, está com pena de seu parceiro?”
Nos anos 70, já no final de sua vida, junto com seu parceiro Toquinho, obteve a maior popularidade de toda sua carreira, fazendo shows pelo Brasil e no exterior, de grande sucesso. Mas devido a sua saúde cada vez mais debilitada, era obrigado a sair do show, direto para o hospital, a fim de se recuperar para o próximo show.
Enfim, Chega de Saudades...
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Abril Despedaçado – Ismail Kadaré (o livro) & Walter Salles (o filme)
Após ler este excelente livro de Ismail Kadaré, resolvi assistir o filme homônimo de Walter Salles, inspirado no livro, que ratificou sua competência depois de “Central do Brasil”. Ambas as obras permitem uma leitura simbólica, mitológica e trágica, com semelhanças a uma tragédia grega. Explorando temas eternos da humanidade: honra, família, morte, vingança e amor, que embora extremamente contido nas limitações culturais e de circunstâncias geográficas específicas tão distantes da nossa prosaica realidade das cidades grandes, conseguem ter um caráter universal e nos instigar profundas reflexões. Por isso, neste mês de abril, decidi trazer para este meu espaço, estas duas belas obras.

Primeiramente apresento uma pequena biografia de Ismail Kadaré:
Ismail Kadaré nasceu em 1936, em Gorokastra, no sul da Albânia. É o mais conhecido escritor albanês. Presenciou a devastação da Albânia pelas tropas que se digladiaram durante a Segunda Guerra Mundial, experiência que deixou as suas marcas tanto na sua vida como na sua obra. Estudou História e Filologia na Universidade de Tirana e no Instituto Gorky de Literatura em Moscou. Depois de sofrer ameaças do regime comunista albanês, exilou-se na França em 1990.
Entre outros livros, publicou “O general do exército morto” (romance que lhe deu notoriedade internacional), “A fortaleza”, “O grande inverno”, “Crônica da cidade de pedra”, “A ponte dos três arcos”, “Dossiê H”, “O palácio dos sonhos”, “Concerto no fim do inverno” e “A pirâmide”.
Recebeu muitos prêmios literários, e foi nomeado diversas vezes para o Prêmio Nobel da Literatura, onde quase sempre aparece na lista de favoritos. Em 2005, recebeu o Prêmio Internacional Man Booker.
Abril Despedaçado foi escrito em 1978 e teve sua primeira publicação traduzida em 1982 na França, e aqui no Brasil, foi publicado pela Companhia das Letras em 2002, com tradução do original em albanês por Bernardo Joffily.
Selecionei de uma entrevista de Kadaré à Folha de São Paulo uma resposta que a meu ver dá margem a uma boa reflexão:
Folha (27/10/2008) - Cabe aos grandes escritores juntar realidade e irrealidade?
Ismail Kadaré - Os escritores são uma raça à parte. A literatura não é democrática. Ela é baseada na desigualdade. Se você escutar que a França tem mil escritores, isso não é boa notícia. Esse número precisa diminuir. A literatura é baseada numa seleção sem piedade, que guarda o grande valor. Até aceito a literatura medíocre ou média, pois ela cumpre uma função, atrai e garante leitores que um dia poderão ir em direção à grande literatura. O perigo começa quando a literatura mediana quer impor suas leis. É preciso que esses universos fiquem bem separados, sem intervir um no outro, como castas.

E agora vamos à resenha do livro:
O jovem montanhês Gjorg Berisha dá um tiro de fuzil e "toma o sangue" de Zef Kryeqyq. É a quadragésima quinta morte de uma vendeta iniciada setenta anos antes, quando um desconhecido foi vítima de um Kryeqyq depois de ser acolhido pelo clã dos Berisha. A matança entre as duas famílias é uma imposição do Kanun, código moral que há séculos é transmitido de boca em boca nas montanhas albanesas (assim como na região de Kossovo). Com rigor de antropólogo, Ismail Kadaré vai ao fundo dessa fantástica codificação do assassinato como direito e dever e extrai de lá toda a fúria das tragédias. Tão minucioso quanto cruel, o Kanun especifica os menores detalhes da vendeta: quem, como, onde e quando matar; a posição do cadáver; o anúncio da morte; o velório e o banquete fúnebre; o sepultamento da vítima; os prazos da vingança e as tréguas entre os clãs; as humilhações que devem ser impostas à família enquanto ela não "recuperar o sangue" que lhe foi tomado. O jovem Gjorg cumpre seu dever de cobrar dos Kryeqyq o sangue que eles devem aos Berisha, e os Kryeqyq têm agora o direito de recuperar o sangue que lhes foi tomado, matando Gjorg dentro de 28 dias. É o Kanun - esse círculo vicioso de execuções - que impulsiona o enredo de Abril despedaçado.
Mas Abril Despedaçado não fica só nisso. Depois de mostrar a vingança de Gjorg, Kadaré se concentra na viagem dos recém-casados Bessian e Diana. Bessian é um escritor de Tirana que, tomado por um fascínio romântico pelo "Kanun", resolve passar a lua-de-mel entre os montanheses. As duas histórias relatadas por Kadaré não têm a menor relação entre si, exceto por um brevíssimo encontro numa estalagem, quando os olhos de Gjorg cruzam com os de Diana, deixando-a profundamente perturbada. O terceiro núcleo do romance é constituído por Mark Ukaçjerra, a autoridade feudal que recebe um tributo de sangue cada vez que ocorre um crime de vingança nas montanhas. Entre Mark Ukaçjerra e os protagonistas das outras duas histórias também não há muita relação, a não ser por um olhar de Diana, que deixa Mark Ukaçjerra profundamente perturbado.

Abril Despedaçado (o filme) – Walter Salles
Em 2001, foi lançado o filme homônimo, dirigido por Walter Salles, com Rodrigo Santoro e José Dumont nos papéis principais, onde foi feita uma adaptação livre por Karim Aïnouz, ou seja, serviu apenas como argumento básico, sem a preocupação em manter muita fidelidade ao livro.
Este filme foi indicado ao Globo de Ouro e ao BAFTA de 2002, como melhor filme estrangeiro e foi talvez o que deu a Rodrigo Santoro maior visibilidade no cenário internacional, e lhe possibilitou ingressar no mercado internacional de atores.
Sinopse
Em abril de 1910, na geografia desértica do sertão brasileiro vive Tonho e sua família. Tonho vive atualmente uma grande dúvida, pois ao mesmo tempo em que é impelido por seu pai para vingar a morte de seu irmão mais velho, assassinado por uma família rival, sabe que caso se vingue será perseguido e terá pouco tempo de vida. Angustiado pela perspectiva da morte, Tonho passa então a questionar a lógica da violência e da tradição, que já dura desde tempos remotos quando seus antepassados começaram a se matar devido a disputa de terras.
A seguir apresento os comentários do diretor Walter Salles sobre o processo de adaptação:
“Li Abril Despedaçado, o romance de Ismail Kadaré, há três anos, durante o lançamento de Central do Brasil. Fiquei profundamente impactado com a força bruta e simbólica daquela história que remetia, de alguma forma, a um relato das origens.
Fiquei atraído pela qualidade mitológica do confronto ancestral narrado por Kadaré - este embate trágico entre um herói obrigado a cometer um crime que não quer e o destino que o impele à frente. Atraído por um mundo que antecede ao tempo, que antecede a palavra, que é feito de não ditos, de olhares. Um "huis-clos" a céu aberto, ao mesmo tempo intimista e épico.Tinha outros projetos na época, todos maiores em escala do que Abril Despedaçado. Mas não conseguia esquecer do drama daquele jovem cuja vida se partia em dois. Quando percebi, já havia começado a adaptação do livro. E abandonado os outros projetos aparentemente mais fáceis e acessíveis.
Antes de tomar a opção definitiva de realizar Abril Despedaçado, um longo processo de pesquisa foi necessário. Esse processo nos levou a entender as características das guerras entre famílias no Brasil. Esses conflitos, geralmente conduzidos por latifundiários, acabaram definindo as fronteiras de alguns territórios do sertão nordestino, como é o caso do Sertão dos Inhamuns, no Estado do Ceará, palco da guerra entre as famílias Montes e Feitosa na primeira metade do século passado.
Levei os resultados dessa pesquisa para Ismail Kadaré. Homem de inteligência aguda, Kadaré nos libertou da obrigação de seguir todos os passos dos personagens do livro. Era uma condição essencial para avançar, devido às diferenças culturais entre o Brasil e os fatos que Kadaré narra na Albânia - o Kanum, código que regulamenta os crimes de sangue naquele país, não tem equivalente no Brasil.
Por sugestão de Kadaré, mergulhamos num segundo processo de pesquisa, que nos levou à tragédia grega e, mais especificamente, às peças de Ésquilo. O derramamento de sangue e as lutas fratricidas pelo poder são alguns dos temas que alimentaram o nascimento da tragédia grega. Aprendi que, até o século 7 D.C., os crimes de sangue cometidos na Grécia não eram julgados pelo Estado. Seu desenlace era determinado pelas famílias em conflito, que estabeleciam seus próprios códigos para a reparação do sangue derramado. Curiosamente, é na ausência do Estado que as lutas pela terra entre famílias também acabaram se desenvolvendo no Brasil. Voltava-se portanto ao Brasil, através do teatro grego. Ficava também claro o caráter universal do relato de Kadaré.
Esta evidência me fez optar por um filme que tivesse uma qualidade fabular, que não precisasse estar fincado num espaço geográfico totalmente realista. Sim, esta história poderia se passar no início do século passado no sertão brasileiro, mas também em outras épocas e em outras latitudes. O romance de Kadaré trata do confronto secular entre os homens, da angústia frente à morte - e do desejo de ultrapassar este ciclo inelutável.
A este núcleo central da história, procurei adicionar elementos que me são próprios. Como em Terra Estrangeira e Central do Brasil, optei por um narrador que, no meio daquele caos, ainda tinha conseguido preservar alguma lucidez e inocência (Pacu); como no documentário Socorro Nobre, preferi um desenlace que desse, de alguma forma, uma segunda chance a alguns personagens; finalmente, interessei-me em investigar a relação entre os irmãos da família Breves - Tonho e Pacu.”
Por mim, não tenho mais a acrescentar...
domingo, 29 de março de 2009
Debate sobre o "Man Booker International Prize"
Man Booker International
What do you think of the 2009 list of contenders?
Dando continuidade à minha última postagem, resolvi fazer um comentário no site do Man Booker, no link “debate”, questionando o critério para a premiação “Man Booker International Prize 2009”. Na realidade, não espero receber nenhuma resposta dos responsáveis pela premiação, pois a área que o site reserva ao “debate” serve tão somente para o público manifestar suas opiniões e debaterem entre si e não para obter alguma explicação por parte do site. De qualquer forma, como já houve um comentário de outro participante – em inglês nativo e não no meu inglês capenga –, concordando com meu ponto de vista e reforçando-o de modo bem interessante, resolvi trazer para cá meu comentário e o link para quem quiser conhecer os demais comentários e/ou participar.
http://www.themanbookerprize.com/forum/topic.php?id=138&page&replies=1#post-2509
I have some questions about the prize. First of all, which is the criterion for selecting the three judges and why only three judges? It seems too restringing. I think the judging panel should have more participants, in order to get a broader judgment. Second, which is the criterion of each judge for selecting the list of authors? Is it only based on the personal literary preference of each judge or are there some specific instructions or rules to be followed? And in this case, who is responsible to define them and which are them?
I’m doing these questions because I noted some intriguing points. First: all the three judges are different at each prize. Why? Second: the short list of contenders is quite different at each prize. I noted for instance, that Phillip Roth, Ian McEwan and Doris Lessing are in 2005 and 2007 lists, but not in 2009 list. Such a big difference among the lists is not coherent for me and let me conclude that there isn’t any criterion well defined by the Man Booker Prize itself, and the contenders’ selection is only a matter of the personal choice of the judges, which could be quite different, were others the three judges.
Due to all above points, I can’t have a clear understanding of the merit of the winner.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Man Booker International Prize 2009 (revisado em 22-03-2009)
O Man Booker Prize divulgou a lista dos pré-selecionados à premiação Man Booker International Prize deste ano.
É bom lembrar que a premiação do “Man Booker International Prize” (criada em 2005) é diferente da premiação mais antiga e tradicional desta instituição (1968). Esta premiação consagra o escritor de ficção que mais se destacou pelo conjunto de sua obra nos últimos anos em termos de continua criatividade, e contribuição geral para o desenvolvimento da ficção a nível mundial, enquanto que a premiação “Man Booker Prize” escolhe o melhor livro de ficção do ano, mas somente aos publicados em língua inglesa por cidadãos das nações da Comunidade Britânica (que inclui além da Grã-Bretanha, a África do Sul, Austrália, Índia, Canadá, etc.). Ver também meu artigo “A difícil escolha de um livro” para outras premiações literárias importantes.
Os selecionados para este ano são:
Peter Carey (Australia), Evan S. Connell (USA), Mahasweta Devi (India), E.L. Doctorow (USA), James Kelman (UK), Mario Vargas Llosa (Peru), Arnošt Lustig (Czechoslovakia), Alice Munro (Canada), V.S. Naipaul (Trinidad/India), Joyce Carol Oates (USA), Antonio Tabucchi (Italy), Ngugi Wa Thiong'O (Kenya), Dubravka Ugresic (Croatia), Ludmila Ulitskaya (Russia).
Alguns são figuras bem conhecidas, mas outros são só para especialistas.
O vencedor será anunciado em maio e a cerimônia de entrega da premiação será em 25 de junho, em Dublin.
Se alguém quiser dar seu palpite para o vencedor, esteja a vontade, porque eu confesso minha incapacidade de julgamento.
Mas há algo que me causa estranheza nestas listas de indicados. No caso do “Man Booker Prize” que escolhe o melhor livro do ano, é compreensível que sejam apontados livros de escritores pouco conhecidos do leitor não profissional, mas no caso do Man Booker International Prize, que escolhe escritores pela excelência do conjunto de sua obra, não me parece coerente que escritores cujas obras são reconhecidas mundialmente como de grande excelência, ganhadores de prêmio Nobel, etc., constem em listas de anos anteriores e não constem na lista de 2009, por exemplo. Para ser mais claro, vejam os seguintes exemplos – Phillip Roth, Ian McEwan e Doris Lessing. Todos os três constaram das listas de 2005 e 2007, são escritores premiadíssimos, possuem obras de valor inegáveis, porem, ficaram de fora na lista de 2009. A possível explicação que encontrei para isso, é que por fazerem uma mudança completa dos jurados a cada premiação, o gosto pessoal deles acaba por ter uma influência decisiva no critério da escolha dos indicados a cada premiação. Desse modo parece não haver um critério coerente por parte da instituição que promove a premiação e fica claro que fossem outros os jurados, o resultado poderia ser muito diferente. Fica a pergunta: Afinal qual é o critério, se é que há um?
terça-feira, 17 de março de 2009
Tzvetan Todorov - A Literatura em Perigo
Tzvetan Todorov é historiador, lingüista e ensaísta. Nasceu em 1939, Sofia – Bulgária, e vive na França desde 1963. Professor e pesquisador do Centro de Pesquisa das Artes e da Linguagem e do Centro de Linguagem da Escola de Altos Estudos Sociais, ambos em Paris, também lecionou em várias universidades dos Estados Unidos, como Yale, Harvard, Columbia e Califórnia-Berkeley. Em 2008, recebeu o prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais, da Espanha. O júri considerou sua obra, traduzida para 25 idiomas, decisiva no pensamento europeu contemporâneo. Ele é um dos grandes estudiosos da semiologia. Representante de um rigoroso método estruturalista, que aplicou à literatura e à crítica literária, Todorov foi evoluindo para a análise cultural e da história das idéias. Publicou várias obras, entre as quais Introduction à la littérature fantastique (1970) [Introdução à literatura fantástica], La conquête de l’Amérique (1982) [A conquista da América], Face à l’extrême (1991) [Em face do extremo, 1995], Mémoire du mal, tentation du bien (2000) [Memória do mal, tentação do bem] e uma autobiografia intelectual, Devoirs et délices, une vie de passeur (2002) [Deveres e delícias, uma vida de passante, ainda não publicado em língua portuguesa].

Resumidamente, a crítica feita por Todorov é que a pesquisa e o ensino de literatura nas escolas e universidades tratam cada vez mais da metodologia de análise literária e classificação estrutural da forma do texto — a que gênero ele pertence, como se estrutura, qual seu estilo — e cada vez menos do seu sentido, ou seja, daquilo que o autor diz sobre o mundo em que ele e o leitor vivem.
Teodorov começa o livro evocando o amor pela leitura, a casa de sua família cheia de livros, os romances devorados, Tom Sawyer, Oliver Twist, Os Miseráveis, para depois passar em revista o desenvolvimento das várias correntes da análise literária das últimas décadas juntamente com um pouco da história da literatura, mostrando através de diversos exemplos a evolução do pensamento sobre literatura e arte de um modo geral.
Em um dos trechos de sua crítica ao atual estudo da literatura destaquei este, pela clareza da idéia da sua argumentação.
“As inovações trazidas pela abordagem estrutural nas décadas precedentes são bem-vindas com a condição de manter sua função de instrumentos, em lugar de se tornarem seu objetivo próprio. [...]
É preciso ir além. Não apenas estudamos mal o sentido de um texto se nos atemos a uma abordagem interna estrita, enquanto as obras existem sempre dentro e em diálogo com um contexto; não apenas os meios não devem se tornar o fim, nem a técnica nos deve fazer esquecer o objetivo do exercício. É preciso também que nos questionemos sobre a finalidade última das obras que julgamos dignas de serem estudadas. Em regra geral, o leitor não profissional, tanto hoje como ontem, lê essas obras não para melhor dominar um método de ensino, tampouco para retirar informações sobre as sociedades a partir das quais foram criadas, mas para nelas encontrar um sentido que lhe permita compreender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo, ele compreende melhor a si mesmo. O conhecimento da literatura não é um fim em si, mas uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um. O caminho tomado atualmente pelo ensino literário, que dá as costas a esse horizonte (“nesta semana estudamos metonímia, semana que vem passaremos à personificação”), arrisca-se a nos conduzir a um impasse – sem falar que dificilmente poderá ter como conseqüência o amor pela literatura.”
“Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorreria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloqüente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano.”
sábado, 14 de março de 2009
Imbecilês

“Ao mesmo tempo, o livro é uma colcha de retalhos de meditações sobre o espírito de Kafka (mentalmente, o escritor elabora um ensaio sobre Kafka enquanto faz a limpeza das ruas); sobre o significado de fuligem, fumaça, sujeira e lixo num mundo que é capaz de transformar até mesmo gente em lixo; sobre a morte; sobre a esperança; sobre pais e filhos (um leitmotif soturno e terno do livro é a doença fatal do pai do escritor); e, entre outras coisas, sobre o declínio da língua tcheca, que estaria se transformando em “imbecilês”. Imbecilês é o nome da língua criada nos Estados Unidos há alguns anos para a comunicação entre pessoas e chimpanzés; ela consiste em 225 palavras, e o protagonista de Klíma prevê que, depois do que aconteceu com seu próprio idioma sob o regime comunista, não vai demorar para que o imbecilês seja falado por toda a humanidade. “Durante o café”, diz esse escritor que o Estado proíbe de publicar suas obras, “li no jornal um poema do mais importante autor que escreve em imbecilês”. As quatro quadras banais são citadas. “Para este poema de 77 palavras”, diz ele, “incluindo o título, o autor precisou de apenas quarenta termos em imbecilês e absolutamente nenhuma idéia [...]. Qualquer um que tenha resistência suficiente para ler esse poema com atenção perceberá que, para um poeta imbecilês, até mesmo um vocabulário de 225 palavras é desnecessariamente amplo.”
Faço aqui um paralelo com o que vem ocorrendo com a revolução da linguagem nos novos meios de comunicação na era da internet. O “internetês” é o tipo de língua escrita, que evoluiu (se é que podemos assim classificar) inicialmente de uma forma mais comedida nos e-mails, onde se usa abreviaturas ou omitem-se eventualmente verbos, conjunções, etc., para se reduzir o trabalho de digitação e ganhar tempo, para uma forma bem mais radical de escrita nos chamados “chats” ou “serviços de comunicação instantânea”, assim como nos “sites de relacionamentos”.
A língua falada sempre foi um organismo vivo e mutante ao longo dos séculos, enquanto que a língua escrita se manteve bem mais conservadora e fiel aos seus princípios lingüísticos. Somente depois que alguma novidade falada ser bem consolidada na cultura do país, é que é adotada oficialmente pela linguagem escrita, porem sempre com o cuidado de se “enquadrá-la” dentro das regras básicas de lingüística. Porem, o que está acontecendo agora, é o inverso, a língua escrita está sendo atropelada, mutilada, transfigurada, sem a menor preocupação em obedecer qualquer princípio lingüístico.
Há um empobrecimento geral da linguagem não somente pela adoção da aberração lingüística surgida na internet, mas também pela assimilação cada vez mais abrangente, de dialetos originários do Funk, Hip Hop, Rap e outras manifestações culturais populares (?!). Numa previsão apocalíptica do futuro, poderemos ter algo semelhante à idéia que passou um dia pela cabeça de Ivan Klíma, apenas tendo o “imbecilês” assumido o “internetês” misturado com o “funkelês” e outras pragas da “incultura popular”.
domingo, 8 de março de 2009
A formação de imbecis
De modo semelhante, a humanidade prosperou nos campos científicos e tecnológicos nos últimos anos com uma velocidade infinitamente superior ao que era percebido até a geração anterior a nossa. Porem, a miséria que é ainda bem visível em várias partes do planeta, assim como os velhos problemas de guerras, crimes, violências, crueldades, picaretagens na política, etc., parecem estar no mesmo nível de antes ou até pior. Por quê?
Nossa evolução, não está no desenvolvimento do meio nem da circunstância material em que vivemos, mas sim no desenvolvimento do modo como pensamos, da nossa capacidade de análise crítica e da forma que agimos e reagimos em relação ao meio que vivemos, e essa evolução continua sendo uma exclusividade de um pequeno grupo de pessoas.
A solução está basicamente relacionada à qualidade da educação básica, que começa lá na nossa primeira infância, e justamente aí, que desde os tempos mais remotos, não houve uma evolução (ou revolução) que fizesse mudar o ciclo vicioso da precariedade da educação das grandes massas. A maioria dos pais, seja por não terem educação e esclarecimento suficiente, seja por não terem condições econômicas mínimas, não têm capacidade de dar uma boa educação a seus filhos e, somando-se ainda a esse grupo, há aqueles que apesar de terem tido acesso a um bom nível de educação e mesmo dispondo de boas condições econômicas, agem com negligencia com relação à educação de seus filhos por absoluta irresponsabilidade. Isso tudo faz com que tenhamos uma bola de neve na degradação da cultura e da educação da grande maioria da sociedade. A perpetuar esta situação, continuamos a ter apenas uma minoria a receber um bom nível de educação, cultura e atenção psicológica, capaz de evoluir e produzir todos os avanços científicos, tecnológicos e artísticos que temos tido.
Para piorar esta situação nossos meios de comunicação de massa, sabem muito bem como explorar o baixo nível cultural em nome do lucro. Segue alguns exemplos bem notórios na nossa sociedade, onde as empresas de comunicação investem muito tempo e dinheiro em atividades para formação de imbecis, simplesmente porque há um grande público ávido por tais imbecilidades e, por conseguinte, podem obter um excelente retorno financeiro:
1) Exploração de notícias da vida íntima (ou mais simplesmente, fofocas) a respeito de artistas e outros não tão artistas, mas não menos famosos, que se desenvolveu de forma extraordinária, inicialmente em revistas especializadas, e depois tomou conta da internet, da TV e jornais.
2) Big Brother (uma extrapolação abjeta do item 1 acima), que bate recorde de audiência (que para meu assombro, é assistido e discutido com entusiasmo por pessoas com aparente boa formação cultural).
3) Programação das TVs abertas de baixíssimo nível, tudo em nome de um bom IBOPE: Telenovelas com uma imensa capacidade de difundir baboseiras onde os personagens representam ou idiotas ou psicopatas, programas humorísticos com caricaturas abobalhadas, de uma imbecilidade sem limites. Sem falar nos programas gerais de entretenimento do tipo Faustão, Silvio Santos e outros, que merecem o prêmio da alienação cultural.
4) Shows musicais de Ivetes, Claudias, Pagodinhos, Duplas Sertanejas, Funkeiros, (aliás, por que não “fuckeiros”?) e outros bombardeando meus ouvidos com uma merdalhada de som, mas que tanto agrada a “galera”.
5) Literatura do tipo “auto-ajuda” ou que exploram o misticismo ou temas que estejam na moda (geralmente também explorados pelas telenovelas). São aqueles livros que vemos nas mãos de leitores por aí, no metrô, ônibus, lanchonetes, etc., com ares de intelectuais, demonstrando que são grandes leitores. E o pior é ter de agüentar seus comentários.
Poderia citar mais uma série de outros exemplos criados para o entretenimento e que na realidade só servem para criarem imbecis, que, aliás, estão sempre muito bem informados sobre as imbecilidades em geral e fazem questão de demonstrarem seus conhecimentos.
Sei que muitos podem não concordar comigo sobre alguns pontos e com certeza muitos outros perguntarão: OK, mas qual a solução?
Há excelentes trabalhos elaborados por educadores, que eu poderia recomendar ou pelo menos fazer aqui um resumo de suas idéias, mas isto aqui é só uma crítica em tom de desabafo de alguém que se sente um peixe fora d’água.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Reparação (livro) / Desejo e Reparação (filme) – Ian McEwan X Orgulho e Preconceito (livro e filme) – Jane Austen
Fazendo meu habitual “browsing” – não me veio uma palavra em português – pela Livraria da Travessa, esses dois livros me chamaram a atenção, primeiro porque ambas as edições destacavam na capa ou contracapa seus respectivos filmes e daí em diante fui constatando outras coincidências: ambos os filmes são do diretor Joe Wright e tem como atriz principal, Keira Knightley. E as coincidências não pararam por ai, folheando o livro de McEwan, o que encontro em seu prefácio? Um texto de Jane Austen. Com não havia lido ainda nenhum dos dois, me veio a idéia de avaliar o que haveria mais em comum entre estas duas obras.
Já conhecia Ian McEwan, de quem sou admirador, e já até comentei aqui sobre seu livro “Amsterdam”, mas já com relação a Jane Austen, embora já tivesse lido muito a seu respeito, não conhecia ainda sua obra e confesso que tinha um pouco de preconceito quanto ao seu valor.
“Orgulho e Preconceito”, publicado em 1813 é a obra mais famosa de Jane Austen (1775 – 1817), mas “Razão e Sensibilidade” (1811) e “Emma” (1816) também gozam de grande reputação e também já foram transpostas para o cinema, conquistando algumas premiações importantes.Sinopse: Inglaterra, 1797. As cinco irmãs Bennet - Elizabeth (Keira Knightley), Jane (Rosamund Pike), Lydia (Jena Malone), Mary (Talulah Riley) e Kitty (Carey Mulligan) - foram criadas por uma mãe (Brenda Blethyn) que tinha fixação em lhes encontrar maridos que garantissem seu futuro. Porém Elizabeth deseja ter uma vida mais ampla do que apenas se dedicar ao marido, sendo apoiada pelo pai (Donald Sutherland). Quando o Sr. Bingley (Simon Woods), um solteiro rico, passa a morar em uma mansão vizinha, as irmãs logo ficam agitadas. Jane logo parece que conquistará o coração do novo vizinho, enquanto que Elizabeth conhece o bonito, rico e esnobe Sr. Darcy (Matthew Macfadyen) amigo do Sr. Bingley. Os encontros entre Elizabeth e Darcy passam a ser cada vez mais constantes, apesar deles sempre discutirem e o envolvimento entre eles vai evoluindo enquanto suas vidas vão se entrelaçando com os acontecimentos.
Avaliação: A narrativa de Austen faz um retrato dos costumes e cultura vigentes na Inglaterra no início do final do século XVIII, sendo que o que pode-se perceber de interessante, considerando a época, é o prenuncio do feminismo. O que as mulheres buscavam naquela época era arrumar um marido que pudesse lhe oferecer uma condição de vida segura e confortável, e se ainda tivessem boa aparência e modos, seria o ideal. Pelo lado dos homens, não era muito diferente, os dotes e a posição social da mulher eram os pontos principais e se pudessem estar aliados a beleza, melhor seria. Jane Austen apresenta através de Elizabeth Bennet (Lizzy), sua personagem principal, uma atitude diferente do padrão aceitável de então em relação ao tema do relacionamento entre homens e mulheres. Lizzy, dona de um temperamento forte, é uma contestadora inteligente e impertinente, num mundo de subserviência feminina, onde deveriam almejar apenas serem bonitas e prendadas, para conseguirem um bom casamento.
Não chega a ser uma obra-prima, e o máximo que posso dizer é que uma história bem contada, escrita com um estilo leve e elegante, mas que contem também uma boa dose de sátira. Levando-se em conta que foi escrita ha cerca de 200 anos atrás, pode ser considerada como uma obra marcante para seu tempo.
“Reparação” de Ian McEwan, publicado originalmente em 2001 (2002 no Brasil), foi transposto para o cinema com o nome “Desejo e Reparação” por Joe Wright em 2007 (2008 no Brasil). Ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora, além de ter sido indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan), Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Roteiro Adaptado. Ganhou 2 Globos de Ouro, nas categorias de Melhor Filme - Drama e Melhor Trilha Sonora. Ganhou 2 prêmios no BAFTA, nas categorias de Melhor Filme e Melhor Desenho de Produção.Sinopse: Em 1935, no dia mais quente do ano na Inglaterra, Briony Tallis (Romola Garai) e sua família se reúnem num fim de semana na mansão familiar. O momento político é de tensão, por conta da 2ª Guerra Mundial. Em meio ao calor opressivo emergem antigos ressentimentos familiares. Neste dia, Briony aguarda a chegada de seu irmão, que virá trazendo um amigo, alem de seus primos gêmeos e sua prima Lola (Juno Temple). Briony, então aos 13 anos, após testemunhar cenas de sexo entre Robbie Turner (James McAvoy), o filho do caseiro e amante da sua irmã mais velha Cecília (Keira Knightley), ainda acaba sendo a única pessoa que naquela mesma noite, viu a sombra do estuprador de sua prima Lola, de 15 anos. Usando sua imaginação de escritora principiante junto com sua incapacidade de entender ainda o mundo dos adultos acusa Robbie, de um crime que ele não cometeu. Abruptamente introduzida “na arena adulta de emoções e dissimulações”, Briony não sabe medir as conseqüências de seu ato, que tem efeitos devastadores na vida de Robbie, Cecília e toda a sua família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

A narrativa de McEwan apresenta a mesma cena vista ora por Briony, ora por Cecília e Robbie, e preenchendo o desenrolar dos acontecimentos com os pensamentos de seus personagens, vai criando expectativas sobre o que vem a seguir, mas sempre deixando a dúvida no ar. Após a primeira parte que se desenrola toda na mansão dos Tallis, a história é abruptamente transportada para as cenas da 2ª Guerra Mundial, na França, para onde Robbie é enviado, após ter aceitado combater em troca de sua pena na prisão. A narrativa ganha outra dinâmica com impressionantes descrições da devastação causada pela guerra. Em paralelo, Briony, agora com 18 anos, resolve trabalhar como estagiária de enfermagem em vez de estudar em Cambridge como seu irmão e sua irmã, dando início a sua tentativa de reparação ao mal que havia causado e mais uma vez, a narrativa da vida em um hospital durante a guerra é arrebatadora. Somente próximo do final, que uma surpreendente verdade a respeito do estupro é revelada por Briony.
Mas McEwan deixa para o epílogo a parte mais instigante para o leitor. Em 1999, Briony aos 77 anos – interpretada por Vanessa Redgrave – após uma carreira de sucesso como escritora, busca a reparação de seu erro até a última linha do seu primeiro e nunca acabado livro, aquele que conta a história de sua vida, mas prevalecem as dúvidas da autora – “Sei que haverá sempre um tipo de leitor que se sente obrigado a perguntar: mas, afinal o que foi que aconteceu de verdade?” --- “Como pode uma romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir como a história termina, ela é também Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar, ou com que possa reconciliar-se, ou que possa perdoá-la. Não há nada fora dela. --- Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus. Desde o início a tarefa era inviável, e era justamente essa a questão. A tentativa era tudo.
Esta sim é uma obra-prima!
Conclusão: Tirando três menções à obra de Austen, que aparecem no livro de McEwan, provavelmente por ter sido muito lida na época da história (década de 1930) e as coincidências que mencionei no início, as duas obras são completamente diferentes e termina aqui minha maluquice.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Oscar 2009

Mas não estou aqui para comentar sobre o show business que cada vez toma mais conta desta arte, nem mesmo para apresentar minha crítica ou palpite de cinéfilo sobre os indicados a ganhar as estatuetas – até porque ainda não assisti nenhum dos que foram indicados. Gostaria apenas de destacar um fato interessante, que é a grande quantidade deste ano de filmes cujos roteiros não são originais, mas sim adaptações de obras da literatura e do teatro. A transposição da literatura para o cinema é sempre um tema bem controverso, no que diz respeito à discussão sobre qual das duas obras é a melhor ou sobre a fidelidade do filme em relação a obra original, etc., mas essa discussão vou deixar para outra postagem.
Dos cinco indicados a melhor filme, os quatro relacionados abaixo não são roteiros originais:
1) “O curioso caso de Benjamin Button” do diretor David Fincher, um dos recordistas de indicações ao Oscar, é baseado num conto de mesmo nome de F. Scott Fitzgerald, que pode ser encontrado em “Seis contos da era do jazz”, publicado pela José Olympio;
2) “O Leitor”, de Stephen Daldry é a adaptação do livro de mesmo nome escrito por Benhard Schlink, que pode ser conferido na publicação da Record;
3) “Quem quer ser um milionário?”, de Danny Boyle, toma como base o livro “Q&A” de Vikas Swarup;
4) “Frost/Nixon”, de Ron Howard, é uma adaptação de uma peça de teatro.
Encontramos ainda alem dos indicados ao melhor filme, o filme "Dúvida" de John Patrik Shanley, que fez uma adaptação de sua peça de teatro, e que concorre com indicações de melhor atriz, e melhores ator e atriz coadjuvante ao Oscar.
Outro filme que embora fora da premiação do Oscar, mas que entrou em cartaz recentemente e com grande divulgação, “Foi apenas um sonho”, de Sam Mendes, também é uma adaptação do livro de mesmo nome de Richard Yates, publicado pela Alfaguara.
E curiosamente o filme “Operação Valquíria”, dirigido por Bryan Singer e lançado recentemente aqui com grande promoção através de sua maior estrela, Tom Cruise, embora seja considerado como um roteiro original, tem seu tema principal – o atentado fracassado contra Hitler – abordado também em três livros lançados recentemente, sob o mesmo nome.
Agora é só aproveitar o carnaval e assistir aos filmes, pois embora os indicados deste ano não sejam filmes de grande apelo de público, podem ser bem interessantes.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Orhan Pamuk
Só fui conhecer a obra de Pamuk depois que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2006 e a partir de então o tenho como um dos melhores escritores da atualidade.
Neve conta a história do poeta e jornalista Ka, um exilado político que vive na Alemanha, mas que volta para sua cidade natal na Turquia, chamada, Kars (que significa Neve, em Turco).Ka pretende escrever uma matéria sobre Kars para um popular jornal da Alemanha e também investigar o estranho aumento repentino de suicídios entre as jovens da cidade. Durante a viagem, ele se lembra de uma antiga colega chamada Ïpek, uma moça muito bonita, pela qual ele se apaixona.
O conflito político e religioso é intenso e envolvente, ao mesmo tempo em que mistura o romance entre Ïpek e Ka, impregnado com os valores quase exóticos da cultura oriental.
O confronto é intransigente e muitas vezes sangrento entre os islamitas radicais e o estado que quer ser secular (leigo ou não religioso). Há violência do aparelho repressivo, medo que os radicais cheguem ao poder pela democracia e crimes são cometidos pelos dois lados: é nesse turbilhão que Ka vaga por três dias, tentando salvar a si mesmo e a seu recém descoberto amor por Ïpek. Enquanto o poeta tenta se equilibrar entre as diversas facções em choque, vê a cidade se tornar um microcosmo dos conflitos raciais, políticos e religiosos da Tuquia, além de palco de sua própria tragédia.
Revelando-se apenas no final do livro, o narrador é um amigo de Ka chamado Orhan Bei, que narra a história do poeta quatro anos após sua visita a Kars, relembrando cada um de seus passos, baseado em suas cartas e anotações.
As aberturas de cada capítulo são elementos curiosos, Pamuk usa como título principal alguma fala marcante que esteja por vir, enquanto usa como título secundário o verdadeiro nome do capítulo. É no mínimo instigante.
Meu nome é Vermelho alia narrativa policial, uma história de amor proibida e reflexões sobre as culturas do Ocidente e do Oriente. A trama se passa em Istambul, no fim do século XVI. Para comemorar o primeiro milênio da Hégira (a fuga de Maomé para Meca), o sultão encomenda um livro para demonstrar a riqueza do Império Otomano, que vivia seu apogeu.Os mais renomados pintores miniaturistas são convidados a iluminá-lo, mas a missão é das mais perigosas e feita em absoluto sigilo de tal forma que nenhum dos pintores sabe o que o outro está fazendo e como tudo será finalmente composto. Isso é necessário por que para provar a superioridade do mundo islâmico, o sultão quer que as imagens sejam feitas com técnicas de perspectiva da Itália renascentista – o que vai de encontro a um preceito básico do Islã, segundo o qual toda arte figurativa constitui uma afronta.
O desaparecimento de um dos miniaturistas parece comprovar o risco da empreitada. Rivalidade profissional, crime passional ou terror religioso? A única pista deixada – um cavalo de estranhas narinas desenhado no corpo do morto – só faz aumentar a intriga. E um novo assassinato vem a complicar ainda mais o caso.
De volta a Istambul após doze anos de ausência forçada, Negro é incumbido de desvendar o mistério. Seu prazo, porém, é exíguo: ele tem apenas três dias para encontrar o assassino – e ganhar a mão da bela Shekure, seu primeiro e único amor.
Contada por dezenove narradores - entre eles um cachorro, um cadáver, uma moeda falsa e o pigmento cuja cor dá nome ao livro -, a história repleta de reviravoltas e construída na confluência da arte, da religião e da filosofia, mostra toda a exuberância estilística de Pamuk.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Saramago e sua sapatada no Papa
Sou fã não só do trabalho literário de Saramago como também pela sua visão política e coragem de expô-las sem meias palavras . E não me venham dizer que essa coragem só veio depois de ter ficado famoso e ganhado o prêmio Nobel. Muito antes disso, já demonstrava ser um homem inteligente, sensível com os problemas do mundo e com coragem de dizer o que pensava, custasse o que fosse.
Sua publicação de hoje é uma sapatada no Papa e na Igreja Católica, onde de forma concisa, mas contundente e clara, consegue tocar em todas as feridas e males causados, desde sua absurda riqueza ostensiva, passando pelas atitudes de conluio com o poder desde os tempos do feudalismo, até chegar nas últimas declarações desastrosas do Papa atual.
Quem tiver interesse em conhecê-la, clique em:
http://caderno.josesaramago.org/2009/02/08/vaticanadas/
É por pura coincidência que temas ligados a religião tem surgido por aqui e o interessante que com uma relação direta ao meu tema recente sobre “Estado Laico” na minha postagem sobre a posse de Obama nos EUA, surgiu nestes últimos dias no Brasil, justamente uma grande polêmica, quando o novo presidente do Tribunal da Justiça (TJ) do Rio, Luiz Zveiter, mandou retirar o crucifixo que estava na sala do Órgão Especial.
De acordo com ele, os juízes dos tribunais continuam com autonomia para manter ou retirar as imagens referentes à sua religião e disse ainda:
- Sou judeu de origem, mas pratico o espiritismo. Sou kardecista.
- O Poder Judiciário é laico, mas seus membros devem ter sua fé.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Ateus saem do armário em Londres

A idéia começou com um certo tom de brincadeira, quando a comediante Ariane Sherine (foto) sugeriu que um "ônibus ateu" circulasse pela cidade como contrapartida às propagandas religiosas que condenavam os não-cristãos ao inferno.
Ela começou a coletar doações para a campanha com a meta de arrecadar 6 mil libras, o equivalente a R$ 20 mil. Nem ela acreditou quando, em menos de dois dias, a conta do banco já registrava 87 mil libras.
A modesta campanha planejada para os ônibus londrinos se transformou em um mega esforço publicitário de mais de 135 mil libras, com anúncios extras no metrô - citando ateus famosos como a atriz Katharine Hepburn e a poetisa Emily Dickinson - e mensagens em telas eletrônicas no centro da cidade.
Alguns teólogos elogiaram a iniciativa dizendo que o slogan encoraja as pessoas a pensarem sobre a existência de Deus e pode dar início a discussões interessantes em torno das religiões, mas há quem diga que a coisa boa dos ateus era justamente que eles não tentavam convencer ninguém de sua não-crença.
Agora, eles teriam se igualado aos pregadores religiosos...
domingo, 25 de janeiro de 2009
Estado laico, mas nem tanto
Depois de ter ficado ensimesmado sobre o significado do juramento de Obama com a mão sobre a Bíblia num país que se diz laico, não pude me conter e resolvi abrir mais uma exceção neste blog para falar sobre política e religião, sem que estes temas estejam diretamente relacionados à literatura ou outra obra artística. Já havia preparado um rascunho sobre o assunto para publicá-lo neste domingo e foi com uma mistura de prazer e frustração que li um excelente artigo de Arnaldo Bloch publicado no jornal “O Globo” de hoje abordando exatamente o mesmo tema. Prazer, por ter encontrado o destaque que o assunto merece e por ter sido tão bem desenvolvido. Frustração, porque fez como que meu ensaio se tornasse comparativamente de menor valor e dispensável.
““Semanas antes da posse de Barack Obama, um ativista americano ateu, Michael Newdow, entrou com um requerimento legal para que fosse excluído, do juramento presidencial, o clássico desfecho, em que o empossado roga pela graça divina (“So help me God” — “Que Deus me ajude”). Julgado por uma corte distrital, o pedido, claro, foi indeferido. Até porque a menção não é obrigatória: especificado no Artigo II, Secção I, da Constituição americana, o texto original não contém a sentença.
Nem todos, contudo, rezariam conforme a cartilha: tomado por uma crise de fé, Franklin Pierce, em 1853, sequer jurou: preferiu “afirmar” seu compromisso com a Nação. E, em 1901, Theodore Roosevelt dispensou a Bíblia.
No caso de Obama, como se viu, Deus ficou, e como: para além do juramento e do “God bless América”, as hordas caíram numa onda sacra, recebendo, de olhos cerrados e mãos elevadas, não apenas as bênçãos dos pastores, mas as palavras do novo pastor da Nação.
Críticos enxergaram aí uma exacerbação desta “institucionalização informal” dos ritos religiosos no cerimonial do Estado, lançando um esfuminho sobre a laicidade norteamericana.
“Com que moral censurar as teocracias islâmicas?”, entreouviu-se, nos corredores.””
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Barack Hussein Obama

É a primeira vez que um negro assume a presidência dos Estados Unidos da America. Sem dúvida um fato que pode ser entendido como emblemático de uma grande e profunda mudança neste país. Será?
Em seu discurso de posse, Obama alertou para os desafios, apelou para a responsabilidade, pediu esperança e previu uma 'nova era' para seu país e para o mundo.
Não tenho grandes ilusões a respeito desta presidência. Para mim, no fundo o que está em jogo é somente uma mudança de estratégias dos EUA frente à fase mais grave de problemas de origem econômica e de política internacional que já enfrentaram desde a depressão e da guerra do Vietnam respectivamente, porem separadamente.
O orgulho do americano que bate no peito para dizer que são a melhor democracia do mundo, o exemplo a ser seguido por todos, continua o mesmo. Ao dizer que “Ainda somos a nação mais próspera e mais poderosa na face da Terra”, que existe “Um medo persistente de que o declínio da América seja inevitável, e que a próxima geração deva ter objetivos menores” e ainda “que nós estamos prontos para liderar uma vez mais”, conforme palavras textuais do discurso de posse de Obama, não me deixam dúvidas – muda a retórica sobre certos assuntos específicos que lhe incomodam pela maneira com que eram tratados pela administração Bush, muda a estratégia de enfrentá-los (mais diplomacia e menos força bruta), mas não deixaram de lado o mesmo objetivo: o de continuarem a serem a potência econômica, política e militar, a ditar as regras para o mundo.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Philip Roth – Entre Nós

Publicado originalmente nos EUA em 2001, somente em final de 2008 chegou aqui pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Brito. Nas suas 172 páginas, Philip Roth reproduz e comenta suas conversas com seus colegas de profissão, como o italiano Primo Levi (1919-1987), o romeno Aharon Appelfeld, os tchecos Ivan Klíma e Milan Kundera, o polonês Isaac Bashevis Singer (1904-1991) e a irlandesa Edna O’Brien. Roth apresenta também uma correspondência com e a romancista Mary McCarthy (1912-1989), um artigo bastante pessoal sobre o novelista Bernard Malamud (1914-1986), um artigo sobre os desenhos de Philip Guston (1913-1980) e ensaio sobre as principais obras do escritor Saul Below (1915-2005), todos norte-americanos. Poderia certamente ainda incluir nesta lista o nome de Kafka, tal a quantidade de referências que lhe são feitas.
Assim que me deparei com este livro, não tive a menor dúvida de que iria gostar. Li de uma tacada só. Comprei-o numa sexta-feira, iniciei sua leitura no sábado e no domingo a tarde já havia concluído.
Pelas minhas postagens anteriores, dá pra se perceber que sou fã de Roth, mas este livro independentemente de ter sido publicado por Philip Roth, apresenta tema que me fascina a respeito do mundo da literatura - saber o que passa pela cabeça de grandes escritores.
E este livro preencheu todas as minhas expectativas, alem de ser uma aula sobre literatura, não no sentido técnico e chato sobre composição literária ou estilos literários, mas sim do que vai pela alma de um escritor, apresenta aulas extraordinárias de história recente pelos escritores que vivenciaram não só o horror do holocausto, mas também dos anos sombrios do pós-guerra marcados pela divisão da Europa.
Abro um parêntesis para uma pequena crítica sobre a obra de Roth – é certo que sendo ele um descendente de imigrantes judeus, queira fazer desta condição seu tema predileto, mas a sua posição de anti-anti-semitismo e a predominância exagerada deste tema em sua obra, vai um pouco alem do que seria razoável e isto mais uma vez se comprova neste livro em que a maioria dos escritores que participam de suas conversas são de origem judaica e sobreviveram de forma marcante à experiência nazista do holocausto.
Mas judaísmo ou anti-semitismo a parte, este livro de Roth emociona não só pela riqueza das idéias apresentadas, mas principalmente pelos diálogos memoráveis e até mesmo pelas próprias histórias de vidas de seus pares. Para aqueles que, como eu, selecionam e marcam trechos à medida que lêem um livro, Entre Nós se mostra, um desafio com tantas longas passagens imperdíveis. Sem falar no próprio entrevistador, com sua sensibilidade para penetrar no espírito das obras do entrevistado. Mesmo assim, resolvi selecionar uma parte, não por ser mais representativa em termos literários, mas sim por uma crítica e ao mesmo tempo um lamento que é apresentado por Roth, com o qual senti imensa afinidade.
Um dos diálogos mais marcantes é com Ivan Klíma. Para quem não sabe, Klíma nasceu em Praga em 1931, teve suas obras como romancista, crítico e dramaturgo, proibidas na Tchecoslováquia pelas autoridades comunistas, e quando menino, na condição de judeu foi transportado como os pais para o campo de concentração de Terezin. Em 1968, quando os russos invadiram a Tchecoslováquia, ele estava em Londres, a caminho da Universidade de Michigan, para ver uma montagem de uma de suas peças e lecionar também. Porem, quando terminou seu período de trabalho em Ann Arbor em 1970, retornou para a Tchecoslováquia com a mulher e dois filhos a fim de se tornar um integrante do “punhado de admiráveis” – um grupo que por sua persistente oposição ao regime, vivia na clandestinidade (deste grupo fazia parte Václav Havel, que depois da queda do domínio soviético, veio a ser presidente da Tchecoslováquia e depois da nova República Tcheca).
Durante este período de dominação russa, surgiu a literatura publicada clandestinamente e de modo artesanal conhecida como “samizdat”, que é comentado por Klíma:
“O “samizdat” tcheco teve origem numa situação de certo modo singular. O Poder, sustentado por exércitos estrangeiros – o Poder instaurado pelas forças de ocupação e cônscio de que só podia ser mantido pela vontade dessas forças de ocupação –, temia as críticas. Ele também tinha a consciência de qualquer forma de vida espiritual, em última análise, está voltada para a liberdade. É por isso que não hesitava em proibir praticamente toda a cultura tcheca, em impedir que os escritores escrevessem, que os pintores expusessem, que os cientistas – especialmente os cientistas sociais – realizassem pesquisas independentes.”
A seguir Roth comenta esta situação e comparando com a liberdade que tem em seu país, faz a tal crítica que mencionei anteriormente:
“Creio que também é verdade que numa cultura como a minha, em que nada é censurado, mas em que os meios de comunicação de massa nos inundam de falsificações idiotas da existência humana, a literatura séria também é responsável pela preservação da vida, ainda que a sociedade praticamente não lhe dê atenção. --- Lá, nada é permitido e tudo é importante; aqui, tudo é permitido e nada é importante”.
“À medida que a Tchecoslováquia for se tornando uma sociedade de consumo livre e democrática, vocês, escritores, vão se sentir atormentados por novos adversários, dos quais vocês eram protegidos, por estranho que pareça, pelo totalitarismo repressor e estéril. O mais perturbador será um adversário em particular, o qual é o arquiinimigo todo-poderoso da literatura, da leitura e do idioma. Garanto a você que jamais haverá multidões reunidas na praça Wenceslas para derrubar essa nova tirania e que nenhum dramaturgo-intelectual será eleito pelas massas indignadas para redimir a alma nacional da estupidez a que esse adversário praticamente reduz todo o discurso humano. Refiro-me ao grande trivializador de tudo, a televisão comercial – não um punhado de canais que ninguém que assistir por eles serem controlados por um censor governamental tacanho, e sim dez ou vinte canais de televisão, chatos e cheios de clichês, que quase todo mundo assiste o tempo todo porque o que eles mostram é “entretenimento”.
Mais uma vez, em vez de selecionar algo relativo à literatura, selecionei da conversa com Milan Kundera mais um depoimento de visão política referente ao mesmo tema de Klíma, que amplia o entendimento do quanto foi marcante para os europeus o período que ficaram presos atrás da cortina de ferro.
“Como conceito de história cultural, Europa Oriental é a Rússia, com uma história muito específica, ancorada no mundo bizantino. A Boêmia, a Polônia, a Hungria, tal como a Áustria, nunca fizeram parte da Europa Oriental. Desde o início essas nações vêm participando da grande aventura da civilização ocidental, passando pelo período gótico, pelo Renascimento, pela Reforma – um movimento aliás, que teve origem exatamente nessa região. Foi ali, na Europa Central, que a cultura moderna encontrou seus impulsos mais fortes: psicanálise, estruturalismo, dodecafonismo, a música de Bartók, a nova estética do romance de Kafka e Musil. Quando, no pós-guerra, a civilização russa anexou a Europa Central (ou ao menos a maior parte dela), a cultura ocidental perdeu seu centro de gravidade vital. Foi esse o evento mais importante na história do Ocidente em nosso século, e não podemos desconsiderar a possibilidade de que o fim da Europa Central tenha sido o princípio do fim da Europa como um todo.”
“Um romance não afirma nada; ele busca e formula questões. Não sei se minha nação vai morrer e não sei qual dos meus personagens tem razão. Eu invento histórias, ponho uma em confronto com a outra, e desta maneira faço perguntas. A burrice das pessoas vem de elas terem resposta para tudo. A sabedoria do romance vem de ele ter uma pergunta para tudo. Quando Dom Quixote saiu pelo o mundo afora, esse mundo se transformou num mistério diante de seus olhos. É esse o legado que o primeiro romance europeu deixou para toda a história subseqüente do romance. O romancista ensina o leitor a compreender o mundo como uma pergunta. Nessa atitude há sabedoria e tolerância. Num mundo baseado em certezas sacrossantas, o romance morre. O mundo totalitário – seja ele baseado em Marx, no Islã ou em qualquer outra coisa – é um mundo de respostas e não de perguntas. Nesse mundo o romance não tem lugar. Seja como for, creio que em todo o mundo as pessoas hoje em dia preferem julgar e não compreender, responder e não perguntar, de modo que a voz do romance é difícil de ouvir em meio a toda a tagarelice insensata das certezas humanas.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Philip Roth - Pastoral Americana

Depois de ler o livro, fiquei pensando de que modo poderia resumi-lo. Ainda atormentado pelas idéias de “A angústia da imprecisão” que publiquei aqui anteriormente, me deparei acuado pelas idéias deslizando de um ponto da narrativa para outro, de um tema para outro, sem conseguir deslanchar meu resumo. A única idéia que me vinha clara é a de que acabei de ler uma obra-prima (e agora mais essa: com hífen ou sem hífen de acordo com a nova ortografia? Deixa pra lá. Vou continuar a escrever do meu jeito e que se dane!).
Diante da dificuldade de resumir um livro tão denso, com tantos assuntos relevantes, e ainda por cima depois ter feito a besteira de ler algumas resenhas, onde conseguiram de forma tão concisa e inteligente, dizer muito com poucos parágrafos, quase sucumbi.
Mas finalmente consegui levar a cabo a tarefa, tive que optar por uma entre as diversas maneiras que esbocei. Então, Voilá:
1. Ponto de partida: o Título
No caso, o título pode ter tanto o sentido de pastores espirituais, devido à contenda religiosa entre o judaísmo e o cristianismo, muito presente em suas obras, mas pode também ser interpretada no sentido teatral pela maneira com que é dividida a obra, como se poderá perceber a seguir.
2. Explicação introdutória sobre a narrativa e seu contexto:
Zuckerman foi colega de infância de Jerry, o irmão mais novo de Seymour e com isso tinha o privilégio de freqüentar a casa. Para ele, Seymour ou o Sueco Levov, como era conhecido na juventude, era na sua visão de menino, um deus, tal a superioridade que demonstrava em todas as suas atitudes diante qualquer dificuldade, um grande vitorioso tanto em qualquer modalidade de esporte como em qualquer situação de sua vida.
A narrativa de Zuckerman se desenvolve quando depois de passados quase 45 anos de sua formatura na escola secundária, escritor de sucesso, mas já idoso, solitário, com cinco pontes de safena e com impotência provocada pela cirurgia que extirpou o câncer da próstata, recebe o convite para um jantar do ídolo de sua infância, Seymour Levov, que usa o pretexto de contratá-lo para escrever um tributo a seu pai. Porem, a conversa não deslancha como previa e ao deixá-lo, fica intrigado, tentando entender o real motivo pelo qual Levov o chamou.
Meses depois, ao ir a uma festa de comemoração pelos 45 anos de formatura da sua turma da escola secundaria, fica sabendo por Jerry, que o Sueco Levov tinha acabado de morrer de câncer na próstata. Portanto, o deus era humano, no final das contas. E que também deve ter passado por angústias, desesperos, desgostos. Assim, ao procurar descobrir e entender o ser humano que existe por trás daquela fachada de perfeição, Nathan Zuckerman descortina, mais uma vez, sua essência (nada bonita, pastoral ou lírica) e Philip Roth realiza mais uma de suas lavagens de roupa suja em um espiral psicológica estonteante.
3. Divisão e desenvolvimento temático:
As ilusões são construídas dentro da visão idealística do sonho americano – Seymour Levov, segunda geração de imigrante judeu, bonito, forte, campeão universitário de basquete, futebol americano, beisebol, fuzileiro naval durante a Segunda Guerra Mundial, embora não tenha tido tempo de combater antes do final dos exercícios, casa-se com a bela e cobiçada candidata local à Miss América, Mary Dawn Dwyer, filha de imigrantes irlandeses católicos e educados com o conservadorismo de cristãos tementes a Deus. Dedicando-se a dar seguimento aos negócios da família, Seymour (ou o Sueco Levov como era conhecido na juventude) sempre trabalhando duro, fazendo a coisa certa, respeitando a ética, de temperamento tão cordato, tão certinho, tão dentro do que era esperado por todos, torna-se industrial de sucesso e rico. Seu irmão Jerry cinco anos mais novo, torna-se um cirurgião plástico de fama internacional, porem tem um temperamento bem diferente do seu, é mais explosivo, confrontador com quem quer que não se alinhe com suas idéias, aliás temperamento esse muito parecido com o de seu pai, Lou Levov.
A desconstrução deste paraíso começa pela sua própria filha Merry, aquela que foi sempre amada e educada dentro da forma liberal, do jeito bom, correto e justo de ser. Porem, Merry, ainda uma adolescente de dezesseis anos, já é dona de uma personalidade furiosamente contestatória contra a guerra do Vietnam, e que se volta também contra todos os valores de vida e princípios morais que seus pais sempre pregaram. É ela que irá explodir com tudo que era mais caro a Seymour Levov, quando resolve literalmente explodir uma bomba num mercadinho local, matando uma pessoa. Merry some por cinco anos e durante todo este tempo, Levov e sua esposa Dawn tem suas vidas emocionais arrasadas, numa busca incessante não só por encontrar sua filha, que sumiu depois da explosão, mas também para encontrar uma explicação racional e coerente para aquilo.
Após o reencontro com sua filha, agora já com 21 anos, Levov vai ao desespero ao se deparar com uma Merry completamente diferente, magérrima, suja e vivendo em situação deplorável porque simplesmente resolveu abraçar a religião jainista, como se já não bastasse lhe confirmar que ela mesma e sozinha tinha instalado e detonado a bomba em sua cidade e que não parou por aí, depois de fugir para outros lugares, se envolveu em outros dois atentados à bomba, sendo responsável pela morte de mais três pessoas, mas não sem antes ser estuprada duas vezes e passar por toda uma sucessão de absurdos e inutilidades que tomou conta de sua vida.
É a angústia de um homem que vê desabar tudo à sua volta, embora tentando sempre compreender tudo e lutar até ao limite das suas forças para cumprir o sonho americano de uma vida feliz, uma família feliz, cumpridor do seu papel na sociedade. Mas cada pilar que construiu com tanto esforço e que lhe custou abdicar de tantas posições mais firmes de confrontação, vão sendo destruídos um a um.
Poucas horas após seu encontro com Merry, Levov estará em sua casa diante de seus pais e sua esposa recebendo dois casais de amigos para um jantar, e a partir daí, ele entrará numa sucessão de surtos ao se deparar com cada detalhe da cruel realidade de sua vida. É a desconstrução daquilo que é inicialmente contado no início do livro como uma vida de um homem exemplar. Após esse jantar em sua casa, tudo que lhe restará é a devassidão, traição, mentira, engodo e desunião entre ele, sua esposa, seus vizinhos e amigos, dentro de seu próprio lar. O deboche da probidade humana, toda e qualquer obrigação ética feita em pedaços.
4. Comentários adicionais
“De mais a mais, era só uma vez por ano que eles se reuniam, e isso ocorria no terreno neutro, isento de cunho religioso, do Dia de Ação de Graças, quando todo o mundo come a mesma coisa, ninguém inventa de sair por aí comendo coisas gozadas – nada de kugel, nada de peixe gefilte, nada de ervas amargas, só um colossal peru assado, para duzentos e cinqüenta milhões de pessoas –, um peru colossal que alimenta todo o mundo. Uma moratória de comidas esquisitas, comportamentos esquisitos e exclusividade religiosa, uma moratória de nostalgia de três mil anos dos judeus, uma moratória de Cristo, da cruz e da crucificação para os cristãos, quando todo o mundo em New Jersey e em toda parte pode se mostrar mais passivo no tocante às próprias irracionalidades do que no resto do ano. Uma moratória para todas as mágoas e ressentimentos, e não apenas dos Dwyer e dos Levov, mas para todo o mundo na América que desconfie de todos os outros. É a pastoral americana por excelência, e dura vinte e quatro horas.”
Mas a ironia sobre o embate entre a religião judaica e as religiões cristãs é apenas uma ponta do Iceberg da obra de Roth. Alem desse tema constante, encontramos nesta obra críticas a outros temas de grande importância política e social como a guerra do Vietnam, Watergate, Nixon e até mesmo o filme “Garganta Profunda”, não escapa de sua mais refinada ironia.
"Pastoral Americana" é o primeiro de uma trilogia que discute e revolve os Estados Unidos a partir de alguns pontos históricos. Começa com esta quebra das ilusões do pós-guerra e de sua inadequação aos tempos atuais. Roth continuou a lavagem de roupa suja, enfocando o macartismo e a paranóia da guerra fria em "Casei-me com um comunista" e levou até a época de histeria puritana se apoderando dos Estados Unidos, época do escândalo sexual envolvendo Bill Clinton e Monica Lewinsky, em "A Marca Humana".



